terça-feira, 23 de fevereiro de 2016

ASSIM FALOU EXU


Diz um poema de Ifá que em certa feita um comerciante, estabelecido no mercado de Oyó, consultou o sábio Orunmilá para saber qual seria a melhor coisa a fazer nas horas vagas. Como trabalhava demasiadamente, o mercador queria aproveitar os raros momentos de lazer da melhor forma possível. Orunmilá consultou o oráculo e disse ao homem que a resposta para aquela pergunta  quem tinha era Exu.

O homem procurou Exu , ofereceu-lhe um galo, marafo, um pouco de tabaco e perguntou:

- Exu, o que devo fazer nas poucas horas vagas que tenho? Como posso aproveitar meu tempo tão curto?

Exu escutou o mercador, tirou do bornal uma flauta, tocou o instrumento e respondeu:

- Passe a trabalhar nas horas vagas.

- Mas Exu, eu já trabalho tanto! Orunmilá não pode estar falando sério quando diz que você tem a resposta para minha dúvida. Eu vim saber como aproveitar as horas vagas e você me diz para trabalhar... Não devo ter tempo para ouvir música, recitar poemas, conversar com meus filhos, bater tambor, louvar os deuses, amar e beber com os companheiros do mercado?

- Claro que deve. A maior parte do tempo.

- Como?

- Passe a fazer isso nas horas em que você costuma trabalhar e trabalhe apenas nas horas que hoje são vagas. Foi isso que eu disse. Não entendeu, meu bom?

E então Exu gargalhou, pegou o bornal, guardou a flauta, arrumou o filá na cabeça e voltou para a esquina.

A lição de Exu (trabalhe apenas nos tempos vagos) soa como um despropósito dentro da lógica produtivista que nos engole. A resposta de Bará é incompatível com sociedades caracterizadas  pelo desejo de consumir. Estamos, afinal, uma etapa adiante da sociedade de consumo. Somos a sociedade do desejo do consumo, a sociedade que não ouviu o conselho de Exu e trabalha de forma alucinada para que o desejo seja saciado - e ele nunca é.

Tristes tempos em que um tênis de marca e um carro do ano viram totens e as árvores e pedras e rios antes sagrados (morada de orixás, inquices, voduns, ancestrais e caboclos encantados) são apenas coisas que podem ser modificadas, extintas, profanadas ou mantidas de acordo com a demanda da produção.

Escravos do desejo, acorrentados ao trabalho, lanhados nos pelourinhos virtuais,  morreremos de trabalhar nas mãos do mais cruel dos feitores: o desejo insaciável de ter o que, quando possuído, já se torna obsoleto.

Ao não escutar Exu, corremos o risco de que Tempo ( que haverá de nos julgar na Noite Grande) nos condene como o povo que sacralizou o carro e profanou os rios.


Nenhum comentário: