terça-feira, 23 de fevereiro de 2016

BRASILEIROS

Nós sofremos no Brasil de certa patologia que chamo de ‘Mal de Neuendorf’. Explico. Kevin Neuendorf foi o chefe da delegação dos Estados Unidos durante os jogos pan-americanos de 2007, realizados no Rio de Janeiro, que chocou muita gente ao aparecer com um cartaz onde se lia: "Welcome to Congo". Alguns brasileiros se sentiram melindrados com o que disse o gringo.

Escrevi na ocasião um texto em que, provocativamente, concordei com o sujeito e afirmei que somos de fato o Congo, já que vieram da região do Congo-Angola milhares de africanos para as lavouras e minas do Brasil Colonial. Somos também jalofos, bamuns, mandingas, bijagós, fantes, achantis, gãs, fons, guns, baribas, gurúnsis, quetos, ondos, ijexás, ijebus, oiós, ibadãs, benins, hauçás, nupês, ibos, ijós, calabaris, teques, iacas, anzicos, andongos, songos, pendes, lenges, ovimbundos, ovambos, macuas, mangajas e cheuas. Todos são grupos de africanos que chegaram aqui com seus valores, conjuntos de crenças, costumes e línguas — culturas, enfim — para, ao lado de minhotos, beirões, alentejanos, algarvios, transmontanos, açorianos, madeirenses e centenas de comunidades ameríndias, inventar o Brasil.

Falo que somos o Congo e me recordo de Oliveira Vianna, que detestaria essa afirmação. Vianna foi o sabichão que escreveu um livro outrora respeitado, que seduziu gerações, chamado "Evolução do povo brasileiro". Segundo ele, a chance do Brasil era a nação embranquecida: a imigração europeia, a fecundidade dos brancos, maior do que a das raças inferiores (negros e índios), e a preponderância de cruzamentos felizes, nos quais os filhos de casais mistos herdariam as características superiores do pai ou da mãe branca, garantiriam ao país um futuro brilhante e branquelo.

Façam a soma entre o Neuendorf e o Oliveira Vianna que existem em nós e o resultado está aí: uma parte do Brasil acha que a empregada doméstica deve vestir uniforme branco e subir pelo elevador de serviço, não gosta de preto, incendeia índios e terreiros de santo, vibra quando a polícia executa moradores de favelas e cria filhos enfurecidos e preconceituosos que saem de noitadas em boates da moda para surrar nordestinos, gays e garotas de programa nas esquinas das cidades. Um país de justiceiros, sinhás e capatazes, em suma.

Somos o Congo e temos vergonha dele. O Congo, que para tantos é nosso veneno, para mim é um bálsamo; remédio e possibilidade de invenção do mundo. O resumo do babado, afinal, está no velho mote da propaganda: o melhor do Brasil é o brasileiro. Concordo e acrescento:e o pior também.


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