quinta-feira, 25 de fevereiro de 2016

MACUMBA PRA TURISTA ÀS MARGENS DO SENA

A presença de franceses no litoral brasileiro ao longo do período colonial é por demais mencionada. Por muito pouco não estou aqui a escrever  na língua da Madame de Pompadour. De todos os episódios envolvendo a francesada e o Brasil, o meu predileto é a desvairada "Festa Brasileira em Rouen", que reputo ter sido a primeira macumba para turistas da história do país. A coisa foi tão quente que acabou virando, em 1994, enredo de duas escolas de samba: Imperatriz Leopoldinense e Império Serrano. 

Os armadores e comerciantes de Rouen estavam interessadíssimos nas expedições ao Brasil, sobretudo em virtude do tráfico de madeiras e aves tropicais. Para convencer o rei Henrique II e a rainha Catarina de Médici a investir nas expedições ao litoral brasileiro, os homens de negócios organizaram uma festa monumental, com temática canarinho, para receber os reis, no dia 1 de outubro de 1550.

Às margens do rio Sena, os franceses montaram um cenário de fazer Joãosinho Trinta parecer diretor de teatro infantil sem recursos. As árvores foram enfeitadas com frutos e flores tropicais; micos, araras, papagaios e tatus foram trazidos do Brasil e soltos no local. Em malocas indígenas construídas especialmente para o evento, circulavam, peladões, trezentos e tantos tupinambás, recrutados no Brasil especialmente para o furdunço. Marinheiros normandos, que conheciam bem nossa terra e falavam tupi, circulavam fantasiados de colonos nos trópicos. Algumas damas foram recrutadas nos lupanares locais para simular danças sensuais e namorar os nativos.

O mais impressionante é que a coisa foi coreografada. Os índios e os figurantes colhiam frutas, carregavam toras de madeira, conversavam com papagaios, deitavam nas redes, simulavam pescarias, tocavam maracas, caçavam, faziam fogueiras e o escambau. Alguns mais assanhados apalpavam as mulheres e balançavam os cacetes para uma platéia assombrada.

Subitamente, no momento mais desvairado do troço, a aldeia foi atacada por um grupo representando os tabajaras, inimigos dos tupinambás. A porrada estancou: árvores foram derrubadas, canoas viradas, figurantes simularam cenas de canibalismo e, no climax absoluto, o cenário foi incendiado. Apesar de simulado, o combate foi violentíssimo e senhoras da platéia desmaiaram, em cena digna de um samba de breque do Morengueira. A quizumba terminou com a celebração da vitória tupinambá sobre os inimigos.

Além dos reis, de nobres, cardeais, prelados, príncipes e embaixadores, estava presente no evento o capitão Nicolas Villegagnon, que pouquíssimo tempo depois lideraría a tentativa de fundar no Rio de Janeiro a colônia da França Antártica. Os monarcas se declararam entusiasmados com as emoções fortíssimas da vida nos trópicos e prometeram o auxílio do estado às investidas no Brasil.

A rainha, que só conseguia chamar os índios de tupinambô, declarou-se particularmente impressionada com dois nativos imensos, bronzeadíssimos e musculosos. Ambos permaneceram na França empregados como serviçais, paus para toda obra, do cerimonial da soberana.

Nenhum comentário: