terça-feira, 29 de março de 2016

A CASA DA TIA CIATA: ESPAÇO DE CULTURA

Lugares são espaços de construção de memórias, culturas, formas peculiares de se experimentar a vida e abordar o mundo. Pensemos nisso considerando também o fato de que as culturas oriundas da diáspora áfrica, aparentemente destroçadas pela fragmentação trazida pela experiência do cativeiro, se redefiniram a partir da criação, no Brasil, de instituições associativas (zungus, terreiros de santo, agremiações carnavalescas, etc.) de invenção, construção, manutenção e dinamização de identidades comunitárias. A união entre estes dois pontos talvez consiga contemplar um pouco da importância que a casa da Tia Ciata teve para a história do samba, do Rio de Janeiro e da cultura brasileira.

Falar da Tia Ciata é, sobretudo, destacar a importância mais ampla das tias baianas no ambiente da Pequena África, um berço por excelência do samba carioca. Estas tias eram, de modo geral, senhoras baianas que vieram para o Rio de Janeiro, exerceram lideranças comunitárias - ancoradas muitas vezes no exercício do sacerdócio religioso - e criaram redes de proteção social fundamentais para a comunidade negra. Além de Ciata, podemos destacar nomes como os de Tia Prisciliana (mãe de João da Baiana), Tia Amélia (mãe de Donga), Tia Veridiana e Tia Mônica (mãe de Carmem da Xibuca e de Pendengo).

Em relação à trajetória de Tia Ciata, a mais famosa delas, cabe ressaltar que a história e o mito dialogam o tempo inteiro, sendo difícil estabelecer alguma fronteira entre estes dois campos. Em um ambiente marcado pela força das culturas orais, aquelas em que o sentido do que é falado é mais relevante que a precisão dos fatos, esse cruzamento é ainda mais vigoroso.

As informações mais precisas que temos indicam que Hilária Batista de Almeida, a Ciata, nasceu em 1854, na Bahia, transferindo-se para o Rio de Janeiro pouco depois de completar vinte anos. O que se conta sobre Ciata no mundo do candomblé é que ela teria sido iniciada, ainda na Bahia, pelas mãos do lendário Bangboshê Obitikô. Radicada no Rio de Janeiro, ocupou a função de Iyakekerê (mãe pequena) na casa de João Alabá, babalorixá com casa aberta na Rua Barão de São Félix, na Zona Portuária, e figura fundamental na construção de laços associativos entre a comunidade negra do então Distrito Federal.

Vale destacar que a distinção entre o sagrado e o profano não é algo que diga respeito às culturas oriundas das áfricas que aqui chegaram. O que se percebe o tempo inteiro é a interação entre essas duas dimensões. A Tia Ciata sacerdotisa do candomblé é, ao mesmo tempo, a festeira que transformou a sua casa em um ponto de encontro para que, em torno de quitutes variados, músicos (profissionais e amadores) e compositores anônimos se reunisse para trocar informações e configurar, a partir dessas trocas, a gênese do que seria a base do modo carioca de se fazer o samba. João da Baiana, Pixinguinha, Sinhô, Donga, Heitor dos Prazeres e tantos outros, conviveram intensamente no endereço mais famoso da história da música do Rio de Janeiro.

A experiência civilizatória da casa da Tia Ciata mostra também que a história do samba é muito mais que a trajetória de um ritmo, de uma coreografia, ou de sua incorporação ao panorama mais amplo da música brasileira como um gênero seminal, com impressionante capacidade de dialogar e se redefinir a partir das circunstâncias.

O samba é muito mais do que isso.  Em torno dele circulam saberes, formas de apropriação do mundo, construção de identidades comunitárias, hábitos cotidianos, jeitos de comer, beber, vestir, enterrar os mortos, celebrar os deuses e louvar os ancestrais. Tudo isso que se aprendia e se ensinava na Rua Visconde de Itaúna, 117.  

(texto originalmente publicado no catálogo da mostra de filmes e debates "O samba pede passagem", realizada no Centro Cultural da Caixa Econômica Federal, em dezembro de 2015)


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