sábado, 26 de março de 2016

NOTAS SOBRE A MALHAÇÃO DO JUDAS NA CULTURA POPULAR

Passava as semanas santas da minha infância em Nova Iguaçu. Sábado de Aleluia, para mim, vinha sempre com a expectativa da malhação do Judas e da reabertura do terreiro de xambá e encantaria da minha avó, no Jardim Nova Era. A casa tocava para Oxóssi e os caboclos no dia de São Sebastião - 20 de janeiro - e só reabria os trabalhos com a oferenda a Exu e o toque de levantar a Aleluia (com um dos cantos mais lindos da encantaria: Alevanta Aleluia, ê; alevanta aleluia! ).



Coisa do sincretismo fabuloso das crenças do Brasil (puristas de plantão: é evidente que não existe nenhuma religião do mundo que não seja sincrética; só para constar), que me fez crescer achando muito natural fazer oferenda a Exu - o dono dos caminhos, da vitalidade e do conforto da alma pela alegria da renovação - na Aleluia. A ressurreição do Senhor é, afinal de contas, encantaria das mais lindas. 

O Judas, um boneco feito de saco de estopa e recheado de serragem, era devidamente enforcado em um poste; ao meio-dia a criançada começava a enfiar o cacete no cujo. Fogos explodiam. No dia anterior, a grande expectativa era quanto a escolha do personagem que seria o Judas daquele ano: o técnico da seleção, o prefeito, o governador, o presidente, o vilão da novela, o general da rua, a velha implicante, o portuga pão duro da quitanda... Malhar o Iscariotes era uma catarse coletiva.

A brincadeira de sentar o cacete no Judas, tradição do sábado de Aleluia, chegou ao Brasil com os portugueses. Há algumas versões sobre a origem do furdunço com um boneco. Câmara Cascudo e Nascentes afirmam que a origem da malhação se remete aos ritos em que a inquisição católica queimava, em praça pública, bonecos representando os hereges que conseguiam escapar das garras do Santo Ofício. 

Para finalizar, uma curiosidade: em 1821, Dom João VI proibiu a malhação do Judas nas ruas do Rio de Janeiro. No ano anterior, a população - zombeteira como ela só - havia descido a porrada em um Iscariotes representando o próprio rei e os demais administradores portugueses que viviam no Rio. A proibição não adiantou. Judas foram malhados nas ruas da cidade e o cacete comeu entre os populares e a polícia.

Nos dias de hoje, em que o Brasil mais parece um teatro de absurdos, a malhação do Judas transferiu-se para as redes sociais, espaços difamatórios privilegiados. O que não falta, de acordo com as convicções de cada um, é Judas para ser malhado na Aleluia brasileira.



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