sexta-feira, 18 de março de 2016

A COR DO GORRO DE EXU

Contam os iorubás que o orixá Exu um dia resolveu desafiar dois sabichões arrogantes na praça do mercado. Eles garantiam, cheios de teorias, conhecer a verdade indiscutível sobre determinado acontecimento que abalou o povo. Exu afirmou aos doutores que o dono da razão é aquele que consegue dizer qual é a cor do gorro que ele leva na cabeça.

Feito isso, Exu colocou os sabichões em lados diferentes da feira e passou pelo meio deles, gingando ao som dos tambores ancestrais. Acontece que a carapuça do orixá era vermelha de um lado e preta do outro. O que olhou Exu pela direita enxergou o filá preto; o que o olhou pela esquerda viu um gorro vermelho.

Um não admitiu que o outro pudesse ter algum tipo de razão e os dois acabaram se matando em nome da verdade absoluta feita com o sal da fé cega. Exu soltou a gargalhada zombeteira e seguiu seu caminho, em busca de um bode para descarnar, realizando assim uma de suas funções mais sofisticadas: a de gerar a confusão que, no fim das contas, nos redime e ensina.

A polêmica que envolve a verdadeira cor da carapuça de Exu, o andarilho, destrói a pretensão dos sábios em relação ao domínio da verdade e a imposição de uma só perspectiva de mundo, normalmente fundamentada na oposição tosca e inflexível entre o bem e o mal. Ela expõe ainda a sofisticada e ancestral visão de Ifá – o corpo literário com os poemas iorubás da criação - sobre versão dos fatos, questionamento da verdade histórica e disputa pela narrativa; temas tão presentes nestes tempos em que todos parecem dispostos a matar e morrer por crenças e certezas.

A respeito desses babados, li boas reflexões de gente citando Nietzsche, Derrida, Foucault, etc. Quero, com este texto modesto, contribuir de mansinho, na quebrada dos tempos, citando a minha maior referência no campo da teoria da História. Já que sou adepto da epistemologia da macumba e tenho por hábito olhar o mundo a partir das encruzilhadas, revelo: Elegbara, mais conhecido como Exu, é o meu teórico do conhecimento predileto.

O fato é que o compadre - um craque nas questões que coloca em suas aventuras - já tinha exposto antes dos alemães e dos franceses esse problema da verdade dos fatos  e da necessidade de sofisticar, pela ampliação da mirada, os olhares, com grande competência.

Escutar a lição de Exu é ensaiar outras miradas antes de arrotar sentenças, matar ou morrer por causa de alguma verdade indiscutível. Elas nos paralisam e nos impedem de dançar na grande canjira ritual, enquanto os atabaques tocam e a carne do bode é  digerida, para fortalecer o axé das mulheres e dos homens, na pimenta forte do tempero de Bará, o senhor das encruzilhadas do mundo.



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