quarta-feira, 27 de abril de 2016

A CIDADE ERA O MARACANÃ


O Maracanã talvez tenha sido a maior encarnação, ao lado das praias, de certo mito de convívio cordial, ao mesmo tempo sórdido e afetuoso, da cidade do Rio de Janeiro. O Maraca foi pensado, em 1950, para ser frequentado por torcedores de todas as classes sociais, mas não de forma igualitária. Ele foi espacialmente dividido em sua concepção, como se cada torcedor tivesse que saber qual é a posição que ocupa na sociedade hierarquizada: os mais pobres na geral, o arco da classe média nas arquibancadas, os mais remediados nas cadeiras azuis e os bambambãs nas cadeiras cativas. 

Havia algo de perverso na antiga geral. Dela praticamente não se via o jogo. Sem visão panorâmica do campo e noção de profundidade, o torcedor ficava em pé o tempo inteiro. Além disso, o geraldino corria o risco permanente de ser encharcado pela chuva e alvejado por líquidos suspeitos e outros objetos que vinham de cima.

Esta fabulação de espaço democrático que era o antigo Maracanã, todavia, ainda permitia duas coisas que nos faziam acreditar em uma cidade menos injusta: a crença num modelo de coesão cordato, em que as diferenças se evidenciavam no espaço, mas se diluíam em certo imaginário de amor pelo futebol; e a possibilidade de invenção de afetos e sociabilidades dentro do que havia de mais precário. A geral – o precário provisório – acabava sendo o local em que as soluções mais inusitadas e originais sobre como torcer surgiam.

A geral era, em suma, a fresta pela qual a festa do jogo se potencializava da forma mais vigorosa: como catarse, espírito criativo, performance dramática e sociabilização no perrengue.

Liquidar a geral, a rigor, poderia ser defensável, considerando-se a precariedade do espaço. O problema é que ele veio acompanhado de um projeto muito mais perverso: não era a geral que precisava sumir; eram os geraldinos. Na arena multiuso, interessa um público restrito, selecionado pelo potencial de consumo dentro dos estádios e pelos programas de sócios torcedores. Facilita-se assim a massificação das transmissões televisivas por canais a cabo e a captura da própria estética do jogo pelos grandes grupos de comunicação, com as suas 120 câmeras espalhadas pelo estádio. 

O fim da geral foi, simbolicamente, o esfacelamento de um pacto de cordialidade que usou o manto do consenso para desenhar simulacros de democracia na cidade. Mas até isso já era.  Prevalece agora, nos estádios e nas metrópoles, a lógica da exclusão explícita. A morte do Maracanã, o velho, é um recado: a cidade democrática não existe mais nem como fábula. O jogo, entretanto, não terminou. O carioca miudinho há de reinventar, como sempre fez, seus afetos fora das arenas e e encontrar novas frestas para arrepiar a vida de originalidades e tensionar o consenso cordial na empresa travestida de cidade; aquela mesma que não lhe quer.  


Um comentário:

Renata Lins disse...

Vainis ver se dá.... deixa ver o que era q queria comentar e volto! :)