sexta-feira, 29 de abril de 2016

A EPISTEMOLOGIA DO SURDO DE TERCEIRA


Ando matutando, em minhas desconfianças a respeito do que chamo de "gramática dos tambores", sobre a possibilidade dos surdos das baterias das escolas de samba sugerirem um potente campo de reflexões sobre as culturas da diáspora africana no Brasil e apresentarem, ao mesmo tempo, fascinantes possibilidades de elaboração de conceitos que amarrem e desamarrem o mundo. Tento desamarrar ao menos a escrita, sem cair em pormenores sobre teoria musical que poderiam dificultar a compreensão do texto. 

A função do surdo em uma bateria é fazer a marcação do tempo. O samba é um ritmo de compasso binário (1 tum - 2 tum). O surdo de marcação é um tambor grave que marca a referência do tempo da batida para os ritmistas de toda a bateria. O surdo de segunda, menos grave que o de marcação, responde a ele, batendo o primeiro tempo do ritmo. É só escutar as batidas regulares do coração para saber do que se trata.

O surdo de terceira é exatamente aquele que, mais agudo que os outros dois,  preenche o vazio que existe entre uma marcação e outra. Ao contrário da previsibilidade dos outros dois surdos, o de terceira desenha um ritmo cheio de síncopes, quebrando a sensação de normalidade da conversa entre o surdo de marcação e o surdo de resposta. 

O surdo de terceira realiza síncopes o tempo inteiro, entre a regularidade de uma marcação e outra. A síncope é uma alteração inesperada no ritmo e é causada pelo prolongamento de uma nota emitida em tempo fraco sobre um tempo forte. Na prática, a síncope rompe com a constância, quebra a sequência previsível do som e proporciona uma sensação de vazio que logo é preenchida de forma inesperada. 

A tradição da cultura do samba, baseada na oralidade, conta que o surdo de terceira foi inventado por Sebastião Esteves, o Tião Miquimba, discípulo de Mestre André na bateria da Mocidade Independente de Padre Miguel. Contam que Miquimba, em uma noite de temporal em que os surdos de pergunta e resposta não estavam presentes a um ensaio da bateria, pegou um surdo e começou a tentar marcar o compasso binário e, ao mesmo tempo, intercalar batidas entre um tempo e outro. Mestre André gostou e mandou fazer um surdo mais agudo e menor que os dois clássicos. Ele, o novo instrumento, passaria a cortar, sincopar e desenhar batidas inusitadas entre as marcações regulares. Em entrevistas sobre isso, Tião Miquimba usou a fabulosa expressão "imaginação percussiva" para explicar o babado.   

Conheço poucas histórias - e aqui vale mais, como nas culturas orais, o sentido do que é relatado que o rigor factual - mais potentes do que essa para se pensar as culturas da diáspora. Elas são culturas de fresta; aquelas que driblam o padrão normativo e canônico e insinuam respostas inusitadas para sobreviver no meio que normalmente não as acolheria O surdo de terceira inventa a vida no desconforto, na precariedade, no perrengue de ter que preencher o vazio com o som que chama o transe dos corpos que sambam.

Os que me acompanham sabem que grito pela necessidade de se buscar olhares mais originais, contra a tendência de normatização, unificação e planificação dos modos de ser das mulheres e dos homens no mundo.  Nossa tarefa brasileira é a de superar a exclusão e, ao mesmo tempo, superar a ideia da missão civilizadora que insiste na generalização do acesso das camadas populares aos padrões de representatividade, consumo e educação sugeridos pelo cânone. De um lado, é a morte física. Do outro, a morte simbólica da inclusão normativa, domesticada e impotente. Precisamos de surdos de terceira que surpreendam e desconcertem o padrão consolidado.

A criação do surdo de terceira deveria ser ensinada nas escolas. O problema é que somos educados não apenas para ignorar, mas para desprezar as culturas de síncope, aquelas que subvertem ritmos, rompem constâncias, acham soluções imprevisíveis e criam maneiras imaginativas de se preencher o vazio do som e da vida com corpos, vozes e cantos.

A hora é a de sair do conforto dos sofás epistemológicos e pular de cabeça na encruzilhada da alteridade, menos como mecanismo de compreensão apenas (normalmente estéril) e mais como vivência compartilhada do que pode ser o mundo. Virar mais as latas e não virar lattes. 

Tião Miquimba e Mestre André, vigorosos intelectuais do Brasil que sobreviveu aos tumbeiros e fez da chibata de surrar o lombo a baqueta que bate no couro, deram o recado. Nós precisamos escutar o corte potente e inusitado, que desenha e desconforta, do surdo de terceira.