domingo, 3 de abril de 2016

DE ONDE OS CABOCLOS BRADAM NO CAIR DA TARDE: LUGARES DE CONHECIMENTO

Nos últimos dez anos, comecei a amadurecer dois princípios que hoje são a base do que escrevo e do que penso. O primeiro é o de que os temas de pesquisa que me interessam são vinculados aos processos de invenção e reconstrução de laços de sociabilidade no campo de saberes oriundos da diáspora africana: sambas, escolas de samba, carnavais, terreiros de macumba, cozinhas dos candomblés, tambores que falam e corpos que respondem.

O segundo é o de que recebi da minha criação e da minha trajetória de vida um legado, baseado em um conjunto de saberes, do qual não posso abrir mão, inclusive no campo da produção do conhecimento. 

Como escrevi certa feita, nasci e cresci dentro de um terreiro de macumba, neto carnal de uma mãe de santo versada nos segredos do xambá pernambucano, da jurema e da encantaria. Fui, por isso mesmo, batizado nos conformes da curimba, protegido pelo caboclo Peri e pelo Exu Tranca Rua e oferecido aos cuidados da lua velha, num terreiro grande de Nova Iguaçu. 

Tive uma infância  assombrada pelo rufar dos tambores brasileiros e pelo alumbramento com os caboclos de pena, o povo de rua, os marujos e boiadeiros. Minha trajetória passou depois pela vivência no candomblé de keto e pela iniciação em Ifá. Estudei, cursei História, fiz o mestrado, comecei um doutorado, cheguei a ensaiar uma militância política convencional mais sistemática e faço uma carreira bem sucedida no magistério de ensino médio. Tudo isso é fundamental na minha formação.

Acontece que, ao lado disso, conforme relatei algumas vezes, conversei com o Zé; recebi ordens de Seu Tranca Rua; vi Tupinambá dançar encantado; fui seduzido pela beleza de Mariana e pela saudade de seu navio; temi a presença de Seu Caveira; cantei a delicadeza da pedrinha miudinha; respeitei o cachimbo velho de Pai Joaquim; me emocionei quando Cambinda estremeceu para segurar o touro bravo e amarrar o bicho no mourão.

Eu também me reconheci no meu deus enquanto ele dançava, tomando o corpo de uma yaô, ao ritmo do vento que balançava as folhas do mariô, amansando o chão de terra batida à virada do rum. O general fazia farfalhar a copa do dendezeiro com a destreza de sua adaga africana. 

O fato é que resolvi fazer desse pertencimento matéria do meu olhar sobre a História, no exercício imaginativo de alargar miradas e na busca de um conceitual matutado nos saberes de terreiros. 

Foi nessa perspectiva que desenvolvi os conceitos de oxalufânico e exusíaco; percebi que o Caboclo da Pedra Preta oferece uma chave para se refletir sobre a história miudinha; passei a pensar o Rio de Janeiro como uma guma de encantaria e proponho entender as relações sociais tensas e intensas da cidade a partir do conceito de canjira de santo: roda, afago, cacete, cheiro de flor, faca de prata.

Insisto na possibilidade de pensar questões culturais a partir do fenômeno do nkubi - o encontro dos cheiros nas florestas do Congo - e conceitualmente acho que a potência de Exu como "enugbarijó", a boca coletiva, e o “igbá odu”, dono da cabaça, encaminham reflexões potentes sobre a cultura das nossas ruas cruzadas.

Ando tomando cada vez mais gosto pela crônica, pelo texto curto, pela glosa e pelas artimanhas com a palavra como instâncias de expressão da produção de conhecimento. Escrevo, numa brincadeira produtiva, evitando conceitos produzidos pela reflexão ocidental. Tenho escutado mais pontos de macumba que lido livros e artigos acadêmicos. Preciso, neste momento, me deseducar para me educar e brincar no mundo. É coisa minha. Mergulho.

Não me levem a mal e nem vejam em mim qualidades que não tenho. Não reivindico lugar  que não seja o de um filho do encanto, criador e contador de histórias bordadas pelo tambor. Esse é o meu lugar de fala e eu não posso ser covarde e burro de abrir mão disso. Daqui eu olho as coisas. Há quem me abrace, há que me mande para a universidade, há quem me condene ao inferno. Eu canto.

Atravessei o mar a nado para ver a juremeira, "por cima de dois barril", como diz o ponto dos caboclos de Oxossi. Um barril é a lembrança e a herança ancestral da minha avó, do terreiro de Nova Iguaçu, das palavras de Ifá, dos cantos em nagô e dos brados dos bugres e mestres brasileiros. O outro barril é o meu compromisso com a minha terra e com o meu filho. A ele eu tenho a obrigação de contar estas histórias e firmar estes pontos, para que a minha avó não morra nunca.

Atravessar o mar foi a decisão mais corajosa da minha vida e eu não tenho nenhuma vontade de voltar para a outra praia. Eu não sei e não quero mais viver onde a juremeira não mora, as folhas não murmuram e os caboclos não bradam no cair da tarde.

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