sábado, 23 de abril de 2016

DEVOÇÃO CARIOCA

O dia começou cedo. Acordei às 3:40 da matina para, cumprindo uma tradição familiar que julguei ser minha tarefa retomar, participar da alvorada de São Jorge no Campo de Santana (que para mim é mais macumbada que a de Quintino, onde não vou desde que morreu o Paulinho, o Rei do Galo, que cozinhava o galo de Ogum no dia de hoje). 

Descendo do ônibus, já escutei o atabaque do mesmo ogã que nos últimos dez anos monta um gongá e rompe a manhã cantando curimbas de umbanda e omolokô, as macumbas cariocas. Tinha mendigo virado na caboclada, o que já é um ótimo sinal. Encontrei amigos, me comovi com a alvorada, acendi minha vela na entrada da igreja, voltei para a curimba. Sai de lá às 7 h, comprei pão e acabei de chegar em casa. A família dorme. 

É certo que São Jorge, simbora embarcar no neologismo, foi "cultizado". Virou mesmo cult para uma galera. Mas mais certo que isso é perceber que São Jorge é mesmo o santo carioca, de uma turma miudinha que ainda resiste ao arrastão do bonde da aleluia, continua ritualizando a vida em altares e terreiros e não vê a menor contradição nisso. Ouvidos atentos, escutei uma senhora dizer, na fila para entrar na igreja, que está completando hoje 27 anos de santo feito. Os afeitos a essencialismos, não sou um deles, dirão que São Jorge não é Ogum e Ogum não é São Jorge. Concordo: Ogum não é São Jorge. Mas sejamos simples: para quem acha que Ogum é São Jorge, ele é. Também concordo. Jorge de Lima já dizia que a mentira pra quem não crê é milagre pra quem sofreu. 

Ogum é, sejamos mais simples ainda, tudo aquilo que quer ser. Para ele fui iniciado, recebi a faca e este é certamente o orgulho da minha vida. Ogum é magma; é força que não se define nas nossas ocidentalizações que insistem em desamarrar os enigmas. Ogum fala pelo adarrum e pelo barravento, beirando a linha do trem: outras gramáticas. 

Eu só sei que vendo o gongá, ouvindo a curimba e pedindo pelos meus na hora da alvorada, saí novamente convencido de que há um Rio de Janeiro que ainda pulsa nas maneiras que a nossa gente ferrada encontrou para dar sentido - pela festa, pela devoção e pelos corpos em transe - à vida.

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