quinta-feira, 28 de abril de 2016

DESAMARRA O PONTO E NÃO RESMUNGA


Escutei dia desses, de um sujeito com ares de estátua de senador do Império indignado com os fogos de São Jorge às cinco da matina, que o "zé povinho", mesmo no meio da maior crise, insiste em fazer festa e não toma jeito. É por isso que o Brasil não presta; arrematou.

Eu sei exatamente o Brasil que ele acha que não presta: é o país do samba, do tambor e da festa. Acontece que eu cresci neste Brasil que horroriza o canônico resmungão. Sou neto de mãe de santo e sobrinho de um ex-presidente de bloco de enredo. Eu teria, neste caso, duas hipóteses: execrar essas coisas (ou ao menos algumas delas); ou vivenciá-las como componentes amorosos da minha vida. Prevaleceu a segunda.

O problema é que meu Brasil sentimental está namorando o beleléu. Setores do bonde da aleluia acham que umbanda e candomblé são do diabo e incendeiam terreiros com o olhar complacente das autoridades. Macumba só é boa quando serve para descolados fazerem moda e alternativos falarem de orixá como se fosse signo do zodíaco e terapia de autoconhecimento. Os cartolas do futebol, em conluio com os empresários da bola e a bandidagem das empreiteiras, resolveram que estádio é arena multiúso e torcedor é cliente com poder aquisitivo. 

A coisa não para aí. O Carnaval também anda em perigo: as escolas de samba sucumbem à lógica dos grandes eventos e desfilam para um Sambódromo cheio de gringos com sono. O carnaval de rua passa por um processo de uniformização — a antítese da folia e parte de uma tendência mais ampla de higienização social da festa — que quer incluir até a cerveja que o folião terá que tomar.

Acho, todavia, que zabumbar no fio da navalha é a nossa saída mais potente. Meus avós tiveram a sabedoria de me ensinar o seguinte: a gente não faz festa porque a vida é fácil. A gente faz festa exatamente pela razão contrária. A cultura do samba veio desse aparente paradoxo. Não se samba porque a vida é mole. Se samba porque a vida é dura. O sentido das celebrações, ao menos para mim, é esse. Festa e fresta são quase a mesma coisa e não concebo uma sem a outra. 

Cada um que elabore os sentidos que forem convenientes para as festas. O fato é que a ideia de felicidade, esta sim, sempre me pareceu meio conformista. A ideia de alegria, ao contrário, me parece tremendamente subversiva e ligada, como contraponto desafiador, aos perrengues e sacanagens da vida e da sua mais puta companheira, a morte. Desde que o samba é samba é assim. 

Minha onda, por isso mesmo, é a de mandar a felicidade para a casa do chapéu e desejar, dando nó no rabo da tirana, que a gente batuque cada vez mais alto, dispute cada vez mais as esquinas, ostente e encante cada vez mais os espaços com os fogos de Jorge e os saravás de Ogunhê. 

Eu ritualizo a vida e acho que é no arrepiado das arrelias e na plenitude dos corpos em trânsito que o mais subversivo dos enigmas há de nos salvar: a capacidade criadora da alegria nos infernos. Para o douto sabichão com nostalgia das europas, mando um ponto de amarração das encantarias caboclas:

Cantei samba na Bahia
Dancei Mina em Maranhão
Tubarão tu não me morde
Eu abro os braços:
Não, não, não!

2 comentários:

Renata Lins disse...

Sou eu.
Embora não seja muito descolada.
Mas tinha um projeto esboçado de falar de orixás fazendo paralelo com planetas na astrologia.
Isso, no entanto, não é porque não levo a sério os orixás: é porque levo a sério a astrologia...
:)

Sobre Historia Podcast disse...

Gostaria de humildemente contribuir pra conversa com um programa que ajudo a produzir: o Sobre História Podcast, episódio 06 - Do riso a luta em que discutimos o carnaval justamente desta perspectiva. Deixo o link: http://www.sobrehistoria.blog.br/podcast/sh-06-riso-luta/

E aproveito pra pedir permissão de linkar este texto no episódio. Faz todo o sentido com o que discutimos no programa.

Abraços