domingo, 10 de abril de 2016

A BELEZA DA CORTE QUE CURA

Não duvido que as entidades da "corte chamarrera" da Venezuela têm cruzamentos com nossas encantarias. De minha parte, confesso que essa é uma das manifestações de religiosidade afro-íbero-ameríndia que mais me emocionam na grande América.  Quase ninguém conhece, já que o vício do cânone nos devora no sórdido artifício de nos fazer crer apenas em nossos saberes letrados e ignorar as sapiências que se escancaram bailando em outras percepções de mundo. 
Os venezuelanos dividem os espíritos ancestrais em 21 cortes, lideradas por uma trindade formada por María Lionza, o Negro Felipe e o indio Guacaipuro. As cortes funcionariam, para ser mais claro e guardadas as diferenças, como se fossem as divisões das linhas de umbanda.
Temos, dentre outras, as cortes de malandros (onde se destacam o malandro Ismael, o malandro Ratón e Isabelita, a moça das esquinas); índios; africanos; chineses; médicos; jovens; vikings (sim, formada por espíritos de navegadores escandinavos que por aqui se encantaram em tempos imemoriais); libertadores (espíritos dos que lutaram nas guerras de libertação nas Américas); etc.
É irresistível pensar em um encontro entre Seu Zé Pilintra e o malandro Ratón. Anseio também - se me animar, vai que faço - um estudo encruzilhado entre as nossas Padilhas e Mulambos e as Isabelitas do país vizinho. Penso nos vikings e logo me lembro da corte de Dom João de Bessarábia e dos turcos encantados que pararam no Maranhão. E se não temos os nossos libertadores (ainda bem; topar com D. Pedro I ou Bonifácio numa guma seria muito para mim), temos a caboclada que lutou na Guerra de Independência da Bahia.
A corte chamarrera, a que mais me interessa, é aquela formada por espíritos que conhecem os segredos das folhas e das mandingas diversas, liderada por Don Nicanor Ochoa Pinto, o "viejo amado". É uma corte muito ligada a dos "juanes" (a corte de "juanes encantados", os curandeiros dos males, como don Juan de los cuatro caminos, don Juan del tabaco, don Juan de los cuatro vientos, don Juan de los suspiros, don Juan de la calle, don Juan del amor, don Juan de las aguas, don Juan del dinero, don Juan del progreso, don Juan de la fuerza,don Juan del pensamiento, don Juan del chaparro etc.).
A possibilidade de encantar as folhas - que os iorubás entregam a Ossain; os bantos a Katendê - é dos mais fortes cruzamentos que existem entre as Áfricas e as Américas indígenas. Se a isso acrescentarmos as jaculatórias das benzedeiras do catolicismo popular ibérico, imaginem só o quanto de sofisticação, beleza, poesia e conhecimento das jinsabas este legado magnífico pode nos proporcionar...
Os cantos são lindos, meus deuses. Mandinga, que eu só consigo me situar na vida a partir desses saberes! E antes que me perguntem, é claro que acredito. Não vejo o menor sentido em não acreditar nessas coisas e tenho horror aos desencantadores do mundo. Eu não creio e não me interesso é por revoluções individuais ou coletivas que ignorem a mirada do encanto. Isso é bonito, gente!
Como só quero estudar isso pelo resto da minha vida (e eu tenho vida pácas ainda), só me resta perguntar: como é que eu faço para estudar isso tudo?
Escutem, por favor. Escutem, por favor. É beleza, minha turma... E a nossa civilização afundando em tarja preta com tanta coisa encantada para conhecer.



Um comentário:

implacavel disse...

Conheci um Malandro Espanhol em uma curimba de Rocha Miranda. Seria ele um elemento da "Corte Chamarrera".