quinta-feira, 7 de abril de 2016

QUEM TEM MEDO DA POMBAGIRA?

A turma danou de dizer por aí que a professora Janaína Pachoal, do imbróglio do impeachment, teve uma performance, ao fazer um discurso, que lembrava a mistura entre uma neopentecostal e uma pombagira descontrolada. Vou meter a mão nesta cumbuca em relação ao segundo aspecto.
Do ponto de vista da etimologia, a palavra Pombagira certamente deriva dos cultos angolo- congoleses aos inquices. Uma das manifestações do poder das ruas nas culturas centro-africanas é o inquice Bombojiro, ou Bombojira, que para muitos estudiosos dos cultos bantos é o lado feminino de Aluvaiá, Mavambo, o dono das encruzilhadas, similar ao Exu iorubá e ao vodum Elegbara dos fons. Em quimbundo, pambu-a-njila é a expressão que designa o cruzamento dos caminhos, as encruzilhadas. Mbombo, no quicongo, é portão. Os portões são controlados por Exu. Grosso modo, e tentando simplificar para quem não é do babado, é por aí.
Os cruzos religiosos entre as várias culturas de origens africanas, ritos ameríndios, tradições européias, vertentes do catolicismo popular, etc. dinamizou no Brasil vasta gama de práticas religiosas fundamentadas em três aspectos básicos: a possibilidade de interação com ancestrais, encantados e espíritos através dos corpos em transes de incorporação (é o caso da umbanda) e expressão (é o caso dos candomblés); um modo de relacionamento com o real fundamentado na crença em uma energia vital - que reside em cada um, na coletividade, em objetos sagrados, alimentos, elementos da natureza, práticas rituais, na sacralização dos corpos pela dança, no diálogo dos corpos com o tambor, etc.; e na modelação de condutas estabelecida pelo conjunto de relatos orais e na transmissão de matrizes simbólicas por palavras, transes e sinais.
A pombagira, a meu critério, é resultado do encontro entre a força vital do poder das ruas que se cruzam, presente no inquice dos bantos, e a trajetória de encantadas ou espíritos de mulheres que viveram a rua de diversas maneiras (a corte das pombagiras é vasta), tiveram grandes amores e expressaram a energia vital através de uma sexualidade aflorada e potencialmente livre. 
A energia pulsante destas entidades cruzadas, como se o domínio delas já não fosse as encruzilhadas, é libertadora, mas nunca descontrolada. Ela é sempre controlada pela própria potência do poder feminino e se manifesta em uma marcante característica da entidade: a pombagira é senhora dos desejos do próprio corpo e manifesta isso em uma expressão corporal gingada, sedutora, sincopada, desafiadora do padrão normativo.
Visões moralistas da pombagira - a mulher que sofreu, se prostituiu e está entre nós para pagar seu karma - ou visões que operam no campo da doença e ligam o comportamento das encantadas das ruas aos desatinos da histeria (que Hipócrates julgava ser um problema exclusivamente feminino e derivado no útero), derivam de um duplo preconceito: contra os desconcertantes fundamentos das entidades bantas correspondentes ao Exu dos nagôs e contra a mulher que se expressa pela liberdade do corpo que gira livremente sem perder o prumo.
Não vou entrar no mérito das funções das pombagiras do ponto de vista litúrgico das curas espirituais, redenções, magias e outros atributos dessas entidades. Quero apenas ressaltar que a mistura entre os fundamentos cruzados das potências de Exu, Mavambo, Aluvaiá, Bombojiro, e a possibilidade da mulher ser senhora da sua sexualidade, controlando o corpo no aparente (para os padrões ocidentais) descontrole, são demais para nosso mundinho acostumado a padrões normativos. Pombagira é a mulher de sete maridos porque quer ser, como diz um ponto da entidade.
Fica a dica: pensemos nisso antes de vincular a pombagira, na maioria das vezes com humor, ao imaginário das mulheres descontroladas, possuídas por forças malignas ou em aparente ataque de nervos. 
Não entro no mérito da performance da professora Janaína, e é o que menos me interessa.Desconfio apenas que não é o humor que marca essa ligação que adoramos fazer entre arquétipo das pombagiras e o que julgamos ser um ataque de nervos de uma mulher. A nossa sociedade tem é medo, muito medo, dessa junção entre a potência de Aluvaiá e o poder da mulher sobre o próprio corpo. Quando entra a questão religiosa, aí é que o babado desanda. Nosso racismo epistêmico, que muitas vezes se manifesta em simpatia "pela cultura afro-brasileira", no fundo não reconhece esses saberes como sofisticados que são, mas apenas como peculiares e folclorizantes.
Bombojira, amizades, é dona do corpo - como são Aluvaiá, Exu, Elegbara - e sabe exatamente o que faz com ele: tudo aquilo que quiser fazer. Nós, que na maioria das vezes somos ensinados a ver no corpo o signo do pecado, é que não temos a mais vaga ideia do que fazer com ele.
Laroiê, Mavambo! Kiuá Nganga Bombogira! Meu amor e meus respeitos.

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