segunda-feira, 4 de abril de 2016

SOBRE O GAO E O BAOBÁ


Existe no Sahel, região africana de transição entre a savana e o deserto, uma árvore conhecida pelos hauçás como gao.  Para nós é uma acácia. Ao ler o belo e necessário livro A Geografia da Pele, em que Evaristo de Miranda descreve suas aventuras como agrônomo naquela África profunda, descubro que o gao é uma espécie de árvore do contra, capaz de subverter o padrão normativo do grupo. Na estação das chuvas, quando o verde toma conta da vegetação e as árvores vivem a florada esplendorosa, o gao perde as folhas, se acinzenta, murcha adormecido. Quando, todavia, a seca chega e a estiagem é inclemente, só essa acácia esverdeia; florescendo exuberante em meio ao cinza que parece mundo morto.

Os africanos do Sahel veneram o gao, visto como uma árvore sagrada, silenciosa e capaz de ensinamentos prodigiosos, inclusive para a conduta das comunidades. A acácia africana tem a ousadia de ser cinza quando o que se espera dela é o verde e verdejar quando tudo se acinzenta. Nos tempos difíceis, é ela que dá a sombra para os rebanhos e alimenta o gado com as folhas das extremidades de seus galhos.

Os baobás são muito maiores que as acácias. Verdadeiros templos encantados, os hauçás os conhecem como kukas. Em regiões ao sul do Saara, algumas etnias sedentárias chegavam a usar os baobás como túmulos dos griôs, os contadores de histórias responsáveis pela memória ancestral e pela manutenção, desta forma, dos laços de coesão do grupo. O baobá é a árvore da permanência e da continuidade da vida pela palavra.

Matuto nas acácias e baobás e concluo que, enjaulados em hospícios de concreto, desencantados do mundo, condecorados com tarjas pretas, eufóricos desmedidos e silenciosos deslocados, nós andamos precisados de gaos e kukas.  Educados na lógica normativa - incapazes de atentar para as culturas que subvertem ritmos, rompem constâncias, acham soluções imprevisíveis e criam maneiras imaginativas de se preencher o vazio, com corpos, vozes e cantos - padecemos prenhes de razões. 

O problema é que para reconhecer isso temos que sair do conforto dos sofás epistemológicos, aqueles em que morreremos tristes e conscientes da nossa suposta superioridade, e nos lançar na encruzilhada da alteridade, menos como mecanismo de compreensão e mais como vivência compartilhada.

Minha desconfiança é a de que precisamos, cada vez mais, escutar os baobás (as árvores da coesão) e atentar para a sabedoria das acácias do Sahel; aquelas que florescem quando tudo é cinza e se recolhem quando tudo canta, com a força e a beleza da diferença.  




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