terça-feira, 3 de maio de 2016

A PELEJA DE BARÁ CONTRA O CIVILIZADOR ADORMECIDO


Muita gente guarda um ‘civilizador’ adormecido na alma. Recebo com frequência indagações sobre minhas referências para falar de história, pensar a cidade do Rio e interagir com ela. Respondo que me inspiro nas lições do Caboclo da Pedra Preta, aquele que cantou a beleza da pedrinha miudinha da Aruanda e encontrou, no que aparentemente é insignificante, o caminho para entender e indagar o mundo. Walter Benjamin consultou-se com ele numa macaia imaginada.
Busco pensar a cultura carioca a partir de um poder que Exu tem: o de ser ‘enugbarijó’, a boca que tudo come. Exu come o que lhe for oferecido e, logo depois, restitui o que engoliu de forma renovada, como potência que, ao mesmo tempo, preserva e transforma. A cidade que me interessa é aquela que nas frestas e esquinas ritualiza a vida para o encantamento dos cantos e dos corpos. Aquela que subverteu a chibata em baqueta de surdo de marcação, conforme digo com frequência.
Nós estamos adoecidos de ‘ismos’. Clamamos por revoluções libertadoras que são, paradoxalmente, normativas. Há quem desqualifique os saberes da gira; há quem os abrace exoticamente como modos de fazer alternativos, sem a coragem, todavia, para o mergulho que raspará o fundo do tacho; há quem os veja de forma paternalista e simpática, sem descer do pedestal de suas epistemes viciadas. A primeira postura me irrita, a segunda me enfada e a terceira — uma espécie de ‘imperialismo cordial’ — me desanima.
Caladas por uma cidade oficial historicamente propensa a demolir seus lugares potenciais de memória, em constante negação do que somos e não queremos admitir, estas culturas reinventaram a vida no vazio do sincopado, sambando, ousando discursos não verbalizados e soluções originais a partir dos corpos em transe e em trânsito, em desafiadora negação da morte, solapada pelo bailado caboclo dos ancestrais que baixam em seus cavalos nas canjiras de santo.
Aqui falaram aguerés, cabulas, muzenzas, barraventos, avamunhas, satós, ijexás, ibins e adarruns. As folhas foram encantadas pelo korin-ewé que chamou Ossain, o Katendê dos bantos. Os toques do tambor são idiomas que criaram, nos cantos mais inusitados da cidade, espaços de encantamento do cotidiano: terreiros.
Muito além de ritos religiosos, nossas macumbas (sambadas, gingadas, funkeadas, carnavalizadas, dribladas na linha de fundo) traçam as tramas do diálogo com ancestrais e apontam para os corpos cariocas como assentamentos animados, gongás feitos de sangue, músculos e ossos, carregados de pulsão da vida. Não há encruzilhada da cidade que não fale disso.
Há quem prefira a cidade desencantada, aquela que não assusta por ter dispersado o seu axé, adequadamente moldada para a circulação de carros e mercadorias. Uma cidade sem o sal da memória dos dias longos e da noite grande. Daí, para mim, não sairá nada. Eu não acredito em nenhuma transformação efetiva no Rio de Janeiro que desconheça o manancial que as culturas do tambor representam e as formas desafiadoras de narrativa que elas elaboraram sobre o lugar.
Podem apostar que nas frestas, entre as gigantescas torres empresariais e arenas multiúso, os couros percurtidos continuarão cantando a vitória da vida sobre a morte no terreiro grande da Guanabara. Pairando sobre o desencanto, estejamos atentos para escutar bem, o vento que vem do mar é a gargalhada zombeteira dos exus anunciando que no meu Rio de Janeiro, a cidade-terreiro, a morte é que morreu.

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