domingo, 22 de maio de 2016

A PELEJA DE CLEMENTINA DE JESUS CONTRA O SAMBA DESMACUMBADO

O canto maior e ancestral de Clementina de Jesus sugere reflexões sobre o processo de "desafricanização" e "desmacumbização" que o samba sofreu ao longo de sua história. Ao ser expropriado de seus criadores, a partir da década de 1930, pela indústria fonográfica e pelo estado brasileiro, e domesticado para virar uma música acessível ao gosto dos consumidores de disco e para virar símbolo da identidade nacional, o samba foi perdendo a ligação explícita que tinha com os batuques centro-africanos e com a macumba carioca. O samba deixou de ser macumba - e ele era - para continuar sendo samba. 
 A antropóloga norte-americana Ruth Landes conta que em 1939, ao chegar ao Brasil para fazer a pesquisa que resultou no clássico A cidade das mulheres, ouviu o seguinte de um ministro da ditadura do Estado Novo: "Devo lhe dizer que o nosso atraso político, que tornou essa ditadura necessária, se explica perfeitamente pelo nosso sangue negro. Infelizmente. Por isso estamos tentando expurgar esse sangue, construíndo uma nação para todos, limpando a raça brasileira". 
O jornal "O Globo" publicou um editorial, no dia 06 de janeiro de 1954, sobre as religiosidades brasileiras originadas da redefinição na diáspora dos saberes africanos. O jornal afirmava explicitamente que as religiosidades africanas eram infecções difundidas por negros ignorantes e mentalmente desequilibrados. Cito um trecho: "É essa infecção que queremos apontar com alarme. É essa traição que queremos denunciar com veemência. É preciso que se diga e que se proclame que a macumba, de origem africana, por mais que apresente interesse pitoresco para os artistas, por mais que seja um assunto digno para o sociólogo, constitui manifestação de uma forma primitiva e atrasada da civilização e a sua exteriorização e desenvolvimento são fatos desalentadores e humilhantes para nossos foros de povo culto e civilizado. Tudo isso indica a necessidade de uma campanha educativa para a redução desses focos de ignorância e de desequilíbrio mental, com que se vêm conspurcando a pureza e a sublimidade do sentimento religioso." 
Percebemos aí uma dupla manifestação do racismo.Esclareço que penso aqui em um racismo herdado do colonialismo. Ele se manifesta explicitamente a partir de características físicas, mas não apenas aí. A discriminação também se estabelece a partir da inferiorização de bens simbólicos daqueles a quem o colonialismo tenta submeter: crenças, danças, comidas, visões de mundo, formas de celebrar a vida, enterrar os mortos, educar as crianças, etc. Ao se separar da macumba, vista como foco de desequilíbrio mental e exemplo da ignorânica dos negros, para ser aceito nos salões da sociedade, o samba despiu-se de boa parte de sua potência. 
Clementina de Jesus, todavia, veio como contraponto a este processo, sobretudo em seus primeiros registros fonográficos (nos últimos a indústria do disco já tinha conseguido tirar parte da potência do canto de Mãe Quelé para torná-lo palatável aos ouvidos normativos). Candeia radicalizou esse reencontro entre macumba e samba no seminal LP Samba de Roda. Clara Nunes e Martinho da Vila trilharam o mesmo caminho, com maior ou menos intensidade. Uma turma da pesada, e aí não posso deixar de citar Wilson Moreira e Nei Lopes, por exemplo, também fez e continua fazendo essa costura. Oxalá mais gente embarque nessa macaia.
 Ao negar a macumba - e o auge desse processo se estabelece na bossa nova, quando o samba nega até o próprio tambor - o samba caiu no gosto do brasileiro, em um processo dinâmico que não comporta leituras estreitas ou simplificadas na dicotomia do bom e ruim. A questão que levanto encara mais o samba como fato social completo que como fenômeno musical apenas. A questão é complexa e reflete boa parte de nossos dilemas. O samba, cem anos depois do Pelo telefone,continua aí. Permanece porque é potente e soube se adaptar às circunstâncias e, paradoxalmente, porque foi despotencializado pelo nosso racismo cordial. Permanece, em alguma medida, não porque não somos racistas. Permanece também exatamente porque somos.

4 comentários:

UnirVersos.Br disse...

A Pele do Tambor ainda bete Forte!
Sentimos com o CorAçao, com as entranhas, a Ancestral Idade, que toca nosso Ser!!

Alguns, ainda teimam em apanhar..

Camila Luiza disse...

Que bom Simas.
Minha dissertação de mestrado fala exatamente de Clementina e esse processo.
Espero pode entrevistá-lo em breve.
Abs

Anônimo disse...

A compositora e cantora Nara Leão mesmo tendo sido parte do movimento da "bossa nova" buscou o resgate da africanidade como fundamento marcante da cultura brasileira. Observei isso no seu disco "Opinião de Nara" lançado em 1964.

https://www.youtube.com/watch?v=osaps8g8ikk

PS: Peço compreensão porque não sou erudito e posso não ter expressado da melhor forma esse ponto de vista.

Fábio Alcidezzzz disse...

Leitura essencial para quem sai no fim de semana para "curitr um sambinha".