quarta-feira, 18 de maio de 2016

CAMPO DE BATALHA

Amanheceremos no Brasil que escureceu. Deliro yaôs cobrindo com folhas de pitangas o nosso solo fértil, macaia das solidões compartilhadas. Ogãs preparam o balaio das iabás, aquele que será ofertado às moças na quebrada do sol, onde o mar afaga o céu e o mundo acaba. O presente encontrará seu destino naquela hora em que os valentes sonham, feito o sinhozinho que escuta de Zefa as histórias da coca do mato.
Ossain preparará um banho com as jinsabas mais cheirosas; Vunji convidará as crianças; Angorô, que é também Oxumarê, inventará improváveis arco-íris; Gongobira encherá de peixinhos coloridos a lagoa de águas escuras, densa como as florestas de onde Odé trará a carne saborosa das caças. O senhor da guerra forjará no ferro em brasa cimitarras, adagas e, sobretudo, ferramentas de inventar o mundo. Um cortejo de cabras, pombas e caramujos precederá o afoxé anunciado pelo pano branco de Lemba-Dilê, Obatalá dos Nagôs. Tem amalá no fogo.
E começará o ritual: os corpos terão que ser fechados ao projeto domesticador, normatizador e disciplinador que se inscreve no domínio colonial, aquele que exige corpos adequados para o consumo e para a morte em vida.
Falaremos com outras vozes ou nos calaremos pra sempre: elas serão musicadas, atravessadas de batuques-toques e tarantantans. E evocaremos a sabedoria dos “cumbas”, poetas do feitiço das palavras do Congo velho, e suas artimanhas de viver produzindo encantarias libertadoras no precário.
Nossa guerra não pode ser travada exclusivamente no campo deles. Ela precisa ser levada, como vivência, reflexão e ação macumbada, para o campo dos saberes onde os desencantadores, não sabem jogar. Para cada discurso empedernido, uma gargalhada zombeteira de Eleguá soará no vento marafando três letras, corporificando a palavra como encruzilhada de três caminhos: não.

Nenhum comentário: