terça-feira, 10 de maio de 2016

DESAFIO PRA DESAMARRAR A VIDA

Quando finalmente proibirem os meus deuses, os meus porres e os meus amores corriqueiros, além de matarem a minha profissão de ensinar aprendendo,  já sei como agir. Vou montar um estoque de velas de sete dias e com elas tentarei reconhecer, com um fiapo de luz que me guiará nos escuros, a minha turma. Buscarei os que batem cabeça nos gongás, sabem das gumas e catimbozeiam fuzuês nas tabocas severinas, alumiando o breu para que algum mestre do babaçuê beba a jurema no coco e me fale de outro mundo.

À supremacia dos ternos bem cortados e roupas de grife, sei que ainda haverá gente capaz de vestir o mistério com manto do Divino e o filá de Obaluaiê. Malocados nas roças escondidas, acharei no fundo de algum armário os brincos de Tóia Jarina, o cocar do bugre, um quepe de marujada, o linho S-120 dos pilintras, camisas de times de várzea, gibões de couro e saiotes femininos, feitos com as folhas da jussara e enfeitados com miçangas coloridas. Eles estarão ali para adornar os corpos que insistirão em dançar livremente.

O projeto de normatização da vida na cidade encarada como empresa pressupõe, para que seja bem sucedido, estratégias de desencantamento do mundo e aprofundamento da colonização dos corpos. É o corpo, afinal, que sempre ameaçou, mais do que as palavras, de forma mais contundente o projeto colonizador fundamentado na catequese, no trabalho forçado, na submissão da mulher e na preparação dos homens para a virilidade expressa na cultura do estupro e da violência: o corpo convertido, o corpo escravizado, o corpo domesticado e o corpo poderoso. Todos eles doentes.

Para combater um projeto que necessita do adoecimento das gentes, regado a muita água benta e caixas de tranquilizantes, só nos resta fazer o simples: tudo. A vida terá que ser reinventada no vazio, que pode ser o do desânimo mas pode ser também o da criação do sincopado. Discursos não verbalizados, burladores das cultas gramáticas, terão cada vez mais que se manifestar a partir dos corpos que transitam na desafiadora negação da morte, como são os corpos-cavalos das canjiras de santo e giras de lei.

Aqueles comprometidos com a tarefa da reinvenção do país que morre não poderão se esconder mais apenas em seus aparatos teóricos, leituras clássicas, ideologias redentoras das vítimas da fome e outros babados. O que tinha de ser, como diria um samba do velho Mauro Bolacha, já era.

Aqui falaram aguerés, cabulas, muzenzas, barraventos, avamunhas, satós, ijexás, ibins e adarruns. As folhas foram encantadas pelo korin-ewé que chamou o mestre condutor de Arôni, o Katendê dos bantos, e Malunguinho anunciou o juremá quilombola nas praias de Alhandra. Morená é encantaria e as urnas marajoaras são, paradoxalmente, exaltações vigorosas da vida ao pensar que o lugar de repouso e revitalização dos nossos mortos é o insondável da criação humana: arte. Os toques do tambor são idiomas que criaram, nos cantos mais inusitados, espaços de encantamento do cotidiano; terreiros de todos os tipos.  Ou se fala disso como estratégia de luta ou nós estaremos de fato fodidos.

Nossa tarefa não é apenas resistir a alguma coisa. Resistir apenas é permitir que o colonizador nos paute dentro de seu projeto de normatização pela chibata, pelas sagradas escrituras, pelos diplomas e pelos remédios que entorpecem o corpo para adequar as almas.

Quando falo de saberes das macumbas (sambadas, gingadas, funkeadas, carnavalizadas, dribladas na linha de fundo), mergulho na etimologia controversa da expressão. Para alguns, macumba vem do quimbundo “dikumba”: cadeado ou fechadura. A expressão se referiria às cerimônias de fechamento dos corpos diante das artimanhas do inimigo. Macumba pode ser também um instrumento musical (uma espécie de reco-reco), com a provável origem no quimbundo “mukumbu”: som. E macumba é, sobretudo, a reunião dos “cumbas”, expressão do quicongo para definir os grandes feiticeiros encantadores de mundo. O prefixo “ma”, no quicongo, designa o plural.

A luta é essa: precisamos de corpos fechados ao projeto domesticador, normatizador e disciplinador que se inscreve no domínio colonial dos corpos adequados para o consumo e para a morte em vida. Precisamos de outras vozes, musicadas, atravessadas de batuques-toques e tarantantans. E precisamos da sabedoria dos “cumbas” e de suas artimanhas de viver produzindo encantarias libertadoras no precário.

Só os corpos entendidos como assentamentos animados, gongás feitos de sangue, músculos e ossos, carregados de pulsão da vida, poderão sobreviver. Nós estamos perdendo e meu estoque de velas está preparado para o segundo tempo. Resta agir e apostar que nas frestas, entre as gigantescas torres empresariais e arenas multiuso, os couros percurtidos continuarão cantando, mesmo proibidos, a vitória da vida sobre a morte no terreiro grande. 

Pairando sobre o desencanto, estejamos atentos para escutar no vento a gargalhada zombeteira dos exus. Eles, os desencantadores, não sabem reconhecê-la e morrem de medo das sonoridades que os desafiam.  Ela é, também por isso, o nosso “uni-vos” mais que necessário. 

Um comentário:

Lucio Sanfilippo disse...

Como sempre, na mosca! Minha dissertação de Mestrado e eu que com ela sou um e tantos, agradece imensamente por tantas belezas, riquezas e grandezas nas miudezas das pedrinhas. Axé, meu pai.