domingo, 29 de maio de 2016

O SAMBA É UM DESCONFORTO POTENTE

Simbora falar de samba e botar o dedo em uma ferida. Percebo que tem uma turma boa acreditando em uma dicotomia perigosa: a de que o samba é um retrato da nossa cordialidade como povo e o funk é o retrato de um Brasil violento, misógino e cruel. Um amigo acaba de me perguntar se eu concordo que o samba retrata um Brasil mais gentil, festeiro, carnavalesco.
Acho que a carnavalização do samba – aquele processo de vinculá-lo apenas ao perfil de música que borda a nossa suposta simpatia – foi e continua sendo em larga medida uma tentativa de domá-lo (seja por parte do Estado, da indústria fonográfica, da mídia, do mercado publicitário, de alguns sambistas, etc.) exatamente porque o samba é muito mais complexo e problemático - no sentido de não se domar a análises superficiais - do que isso.
Muito mais do que gênero musical ou bailado coreográfico, o samba é elemento de referência de um amplo complexo cultural que dele sai e a ele retorna, dinamicamente. Nos sambas vivem saberes que circulam; formas de apropriação do mundo; construção de identidades comunitárias dos que tiveram seus laços associativos quebrados pela escravidão; hábitos cotidianos; jeitos de comer, beber, vestir, enterrar os mortos, amar, matar, celebrar os deuses e louvar os ancestrais. Reduzir o samba ao terreno imaginário onde mora a alegria brasileira do carnaval é um reducionismo completo.
Não custa recordar que o discurso do samba, e de toda a múltipla musicalidade oriunda da diáspora africana, também está no fundamento do tambor, que fala daquilo que nossas gramáticas não nos preparam para ler. O tambor - e são tantos! - vai buscar quem mora longe e isso é muito sério.
O samba - de cara podemos lembrar até da complexidade de experiências que o definem - é testemunho e fonte documental para constatar as nossas contradições poderosas; o nosso horror e as nossas escapadelas pelas frestas da festa: o beijo na cabrocha, o assassinato de Malvadeza Durão, a alvorada no morro, a prisão do Chico Brito que fuma a erva do norte, a ilusão de um olhar, o mulato calado que já matou um e se garante na inexistência do X-9 em Mangueira, os poderes do jongueiro cumba, o batizado do neguinho vestido de anjo em Pirapora, o preconceito racial no casamento do neguinho e da senhorita, as porradas que o delegado Chico Palha enfiava em macumbeiro nos tempos da vadiagem, a navalha no bolso, o revólver como maneira nossa de entrar no século do progresso, a mulher vitimada pela violência, submissa como Amélia, rebelde e altaneira como Gilda; o tiro de misericórdia no menino que cresceu correndo nos becos que nem ratazana e morreu como um cachorro, gemendo feito um porco... Tá tudo no samba.
Foi exatamente o samba, sobre o qual reflito sistematicamente, que me fez perceber e encarar um Brasil de complexidades que não comportam dicotomias reducionistas. O samba é um desconforto potente para que o Brasil se reconheça como produtor constante de horror e beleza. O samba é a entidade mais poderosa do nosso terreiro. É o filho mais duradouro dos tumbeiros, em tudo que isso significa de tragédia, redenção, subversão, negociação, resistência, harmonia, violência, afeto, afirmação de vida e pulsão de morte na nossa história.

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