sexta-feira, 6 de maio de 2016

TAMBOR É LIVRO E LIVRO É TAMBOR

Houve um tempo na minha vida em que eu ficava meio constrangido quando me perguntavam sobre os livros que marcaram a minha infância e adolescência e criaram em mim o hábito de gostar de histórias. Chegava mesmo a inventar os livros fundamentais na minha formação. Precisei de tempo e de coragem para admitir que na minha formação os livros, infelizmente, não foram fundamentais; meu amor por eles é tardio e imenso. Hoje. certamente, a minha vida sem os livros não teria a mesma graça. Não me imagino sem eles.

Eu aprendi, todavia, a gostar de histórias com uma senhora que não tinha nem o primário completo, a minha avó. E não foi em uma biblioteca; foi em um terreiro na Rua Castor, no Jardim Nova Era, nos confins de Nova Iguaçu. O maravilhoso se manifestou para mim no rufar dos tambores misteriosos, na dança desafiadora do Obá dos Obás, no bailado sensual de Oyá e no xaxará do senhor da varíola. Eu vi o curupira nas encantarias dançar pelo corpo preto de Maria dos Anjos; eu vi Tóia Jarina e Mariana; ouvi de Catita a história de seu encantamento em um cipó de jitirana; reverenciei o brado de Japetequara, caboclo do Brasil, nas floradas da sucupira.

E aí, por tudo isso, me peguei assim. Fui de banzar nos salões, mergulhar nos tratados e dissimular nas festas suntuosas. Um dia, na crise braba, desencanei e achei o rumo. Sou o menino assombrado de Nova Era. É dele, o menino repreendido um dia pelo caboclo Pery porque fez besteira, o olhar que lanço aos homens. 

Gosto de rua, mercado, gente miúda como eu. Sou do porre, da bola, da troça, do beijo, do sol, da cachaça, do dendê, da perna torta, do português torto, do flozô e da viração do mundo. Sou de observar o saber das miudezas e reverenciar o sentido da vida onde aparentemente ele não está. Não acredito em iluminados; eu acredito em encantados; homens, mulheres e crianças que não morreram. Viraram vento, pedra, flor e areia de rio.

Hoje tenho uma dificuldade tremenda em crer nas verdades desencantadas e abraçar as causas e coisas visíveis, aquelas que não cantam e dançam ao sabor dos ventos que me ensinaram, enquanto tambores batiam, o pouco do que sei. Eu amo os livros que soam como os tambores e amo os tambores que parecem livros: eles contaram, e ainda contam, para mim grandes histórias.

Um comentário:

Elmo Lage disse...

Que maravilha! Parabéns, Simas!