segunda-feira, 16 de maio de 2016

VENCENDO A DEMANDA


Luiz Antonio Simas / Luiz Rufino

O mês de maio nos lembra de que é necessário aprendermos a lição dos pretos velhos: toda demanda lançada há de ser devidamente desatada; essa é a forma que temos de garantir a sustentação de nossas toadas. Afinal, nos constituímos através da linguagem e através dela é que firmamos e encantamos nossos terreiros/mundo. A astúcia de praticar a dobra na linguagem é a forma que temos de não nos subordinarmos diante a imposição de normas que nos violentam e nos negam enquanto possibilidade. Assim, se diz para não dizer e não se diz para falar. É desse jeito que se dá o nó no rabo da caninana, coisa de amarração. São as mumunhas dos “negos véios” que expulsam as marafundas do obscurantismo político que nos obsedia.

A sabedoria dos velhos cumbas, poetas feiticeiros, mestres do poder e do encantamento das palavras, perpetuaram-se ao longo do tempo e firmaram ponto para nos ensinar a lição que há de ser incorporada urgentemente nos dias de hoje. É cada vez mais necessário desatar os nós que insistem em nos estrangular e enunciar versos que comuniquem múltiplos entenderes em alguns poucos dizeres. Assim, o que pode parecer uma redução, uma simplificação do verso, pode ser transformado em mandinga: quando menos se espera é que se dá o bote.

Muitos daqueles que eram tidos como boçais pela ordem dominante encantaram seus senhores em uma única palavra lançada. Os doutores e sinhozinhos passavam a noite perdidos nas matas na viração das luas, ou sofriam de esfriamento do corpo. O que nos é soprado nos ouvidos é o que diz o verso: o leite tá fervido, o café já está coado, jongueiro que é jongueiro não chora o leite derramado. É hora de firmamos nossos pontos no riscado da pemba, afinal, os pretos velhos são aqueles que plantam bananeiras na boca da noite e comem seus frutos na boca da madrugada. A demanda nos está sendo lançada; há que se vencer-demanda.

Se a amarração educação/cultura nos foi lançada como um feitiço cuspido da boca da Casa-Grande chegou a hora de improvisarmos um novo verso que não só desate a demanda amarrada, mas também aponte o curso de uma toada a ser mantida. No Brasil, com exceções brilhantes de gente que raspou o tacho, a educação é pensada como uma instância normativa e padronizadora. A cultura, por sua vez, pode ser, como um conjunto de práticas e dimensões simbólicas de invenção constante da vida, o espaço de possibilidade de transgressão do padrão normativo. Neste sentido, a educação prende e a cultura liberta.

Constatando isso, quando se une um ministério da educação ao da cultura, imaginamos o seguinte: ou a educação vai ser pensada com o caráter transgressor que ela deveria ter, potencializando a perspectiva do encontro dela com a cultura, ou a cultura vai se acorrentada pelo viés normatizador, conservador e adestrador da educação. É evidente que na demanda é a segunda possibilidade que vai vigorar. Educação e cultura a serviço de um Brasil tacanho, doente, mesquinho, reacionário, intransigente, misógino, colonizado, homofóbico e fundamentalista.

A nosso ver, tanto a educação, quanto a cultura devem ser percebidas como mumunhas de preto-velho: um repertório infinito de invenções, práticas, modos de sociabilidade, de conhecimento, de arte e de vida. Tanto a educação, quanto a cultura são fenômenos inerentes à condição humana. Assim, são tão diversos e inacabados quanto a própria presença e interação dos sujeitos que a incorporam. Toda educação é também cultura e toda cultura compreende-se como um contexto que tece suas experiências de saber ao mesmo tempo em que trança também pedagogias que lhe são próprias. A educação, porém, para ser percebida como cultura, deve se colocar como tributária da potência dos enlaces culturais e integrante deles. Se for ela, todavia, em sua face instrutora e burocrática, que conduz os modos de vida, esta se esvazia das possibilidades de mandinga e se transforma em mera reprodutora de valores vigentes institucionalizados.

Precisamos pensar a educação como prática que reconheça e credibilize a experiência humana na sua diversidade. A sugestão é encarná-las feito mumunha de preto velho, amarração de múltiplos entenderes em um único dizer. Educação como cultura, prática emancipatória que transgrida com toda e qualquer perspectiva obcecada por cursos únicos e por tutelas de bom comportamento. Há de nos lançarmos no cruzo das flechas atiradas por outras sabedorias, produtoras de efeitos de cura, encanto, vigor e abertura de caminhos. Os repertórios de saber alinhavados nas contas do rosário são inacabados, conta a conta nos é revelado um novo segredo. Dessa forma, nos cabe curar-se na fumaça pitada do cachimbo para irmos à luta de um mundo que considera a diversidade como fonte de vida.

Assim, atar a potência dos fenômenos da educação e da cultura a um único verso é prática que quase sempre tende para a normatização e para o conservadorismo. O alvo é o aprisionamento dos sujeitos envolvidos, o desmantelamento de seus esquemas cognitivos e a orientação de um modo único de racionalidade que reflete os investimentos de um projeto de dominação política.  A escola ocidental, fundamentada no ensino seriado e na fragmentação de conteúdos, é normativa sempre e padroniza comportamentos mesmo quando adota linhas alternativas. O alternativo aí, afinal, vira padrão para o grupo. E as diferenças? A rua como espaço poderoso de práticas culturais, a rua das possibilidades exusíacas, poderia resolver isso.

Se a escola normatiza, a rua deveria ser o ponto de encontro capaz de permitir o convívio entre os diferentes, desestabilizando o padrão. Em tempos menos afoitos, cada criança trazia as bagagens de experiências distintas, na casa e na escola, trocadas na rua de forma lúdica e descompromissada, em um processo enriquecedor, a partir do ato de conhecer pelo brincar.  Mas isso simplesmente não é possível nesse padrão de cidade desencantada que nos engole sem piedade, a não ser que encaremos a rua como escola e pratiquemos a subversão da escola em rua, encruzilhando experiências de alargamento das percepções do mundo.

Assim, já que o desafio é tomar a lição dos "negos-véios" simbora desatar o nó do rabo da maldita e explanar a marafunda que nos foi lançada: o Ministério da Educação normalmente foi pensado na “plantation Brasil” como um ministério curricular da agenda política colonial, enquanto o Ministério da Cultura seria um ministério dos modos civilizatórios brancos-machos-cristãos, em detrimento do primitivismo animista-fetichista. Alguns avanços na atuação do Ministério da Cultura nos últimos tempos apontaram a possibilidade de se quebrar essa lógica. Eles, estes avanços, agora serão solapados, sob controle dos brancos-machos-cristãos que assumiram o poder.

Para vencer essa demanda, convém talvez pensar no que nos aponta o Gao, uma árvore africana do Sahel, região de transição entre a savana e o deserto; nas encruzilhadas entre a água e a secura. O Gao é uma espécie de árvore do contra, capaz de subverter o padrão normativo do grupo. Na estação das chuvas, quando o verde toma conta da vegetação e as árvores vivem a florada, o Gao perde as folhas, se acinzentamurcha estropiado. Quando a seca chega arrepiando e a estiagem é inclemente, só essa acácia esverdeia; florescendo exuberante em meio ao cinza que parece mundo morto.

Os africanos do Sahel veneram o Gao, visto como uma árvore sagrada, silenciosa e capaz de ensinamentos prodigiosos, inclusive para a conduta das comunidades. A acácia africana tem a ousadia de ser cinza quando o que se espera dela é o verde e verdejar quando tudo se acinzenta. Nos tempos difíceis, é ela que dá a sombra para os rebanhos e alimenta o gado com as folhas das extremidades de seus galhos.

Enjaulados em hospícios de concreto, desencantados do mundo sem terreiro, condecorados com tarjas pretas, eufóricos desmedidos e silenciosos deslocados, nós andamos precisados de ouvir os gaos.  Educados na lógica normativa - incapazes de atentar para as culturas que subvertem ritmos, rompem constâncias, acham soluções imprevisíveis e criam maneiras imaginativas de se preencher o vazio, com corpos, vozes e cantos - padecemos prenhes de razões. 

Acinzentou no Brasil. É a hora de verdejar dinâmicas novas, feito os gaos, saindo do conforto dos sofás epistemológicos, aqueles em que morreremos tristes e conscientes da nossa suposta superioridade, e morar na encruzilhada da alteridade, menos como mecanismo de compreensão e mais como vivência compartilhada. Atentemos para a sabedoria das árvores do Sahel; aquelas que florescem quando tudo é cinza e se recolhem quando tudo canta, com a força e a beleza da diferença, porque o canto já se fez presente no mundo.

Como ensinou o cumba de Bracuí no vencimento das demandas e no brado para as invenções necessárias, deixamos inscrita a nossa gira de encantamento dos mundos pela cultura:

“Da flor do jambo 
à raiz do cambucá,
nasce Congo,
morre Congo 
e tem Congo no lugar.”

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