sábado, 11 de junho de 2016

NOTAS BÁSICAS PARA UM FICHÁRIO DOS ENCANTOS

Reproduzo aqui pequenas anotações que faço sobre alguns saberes que estudo. Já são mais de cem fichas com informações do tipo.
ALHANDRA: Cidade no litoral sul da Paraíba; é a representação dos reinos do Juremá na terra. Reza a tradição que em Alhandra os poderes dos Mestres da Jurema teriam sido anunciados.
CATIMBÓ: Conjunto de práticas rituais abrangendo atividades místicas que envolvem desde a pajelança indígena até elementos do catolicismo popular; com origem no Nordeste. Tem como seus fundamentos mais gerais a crença no poder da bebida sagrada da Jurema e no transe de possessão, em que os mestres trabalham tomando o corpo dos catimbozeiros. As versões mais difundidas sobre a origem da expressão evocam desde o tupi antigo (caa - floresta + timbó - torpor causado por fumaça), até variações da expressão cachimbo, apetrecho muito usado pelos catimbozeiros.        
ENCANTARIA: Conjunto de ritos fundamentados na crença em caboclos encantados e encantadas. O encantado não é o espírito de um ser humano que morreu. Ele é o ser arrebatado, que superou a morte e a vida como conceitos biológicos e passou a viver transformado em árvore, pedra, acidente geográfico, planta, vento, areia, flor, pássaro. Sem deixar de ser ele mesmo e aquilo em que se transformou, o encantado interage ritualísticamente com os viventes através do transe.
CABOCLOS DE ENCANTARIA: Ao contrário do catimbó, na encantaria o termo caboclo não é sinônimo de entidade ameríndia, podendo ser genericamente utilizado para designar entidades de variadas origens. Os caboclos encantados, se reúnem em famílias, com um chefe e suas linhagens, que abrangem turcos, índios, reis, nobres, marujos, princesas, etc.
CABOCLOS E MESTRES DA JUREMA: Os mestres foram pessoas que, em vida, desenvolveram habilidades no uso de ervas curativas. Com a morte, passaram a habitar um dos reinos místicos do Juremá. Lá são auxiliados pelos Caboclos da Jurema, espíritos de indígenas que conheceram em vida as artes da guerra e da cura.
FAMÍLIA DE ENCANTADOS: A encantaria se organiza em famílias de entidades encantadas, unidas por laços de afinidade ou parentesco.
FAMÍLIA DO LENÇOL: A família mais famosa de encantados. No fundo do mar da praia dos Lençois - em Curupupu - mora o Rei Dom Sebastião, que encantou-se durante a batalha de Alcácer-Quibir. Essa família é formada apenas por reis e fidalgos. A vinda do Rei Dom Sebastião ao corpo de uma sacerdotisa é muito rara, alguns afirmam que ocorre de sete em sete anos. Da família fazem parte ainda, dentre outros, Dom Luís, o Rei de França; Dom Manoel, conhecido como o Rei dos Mestres; a Rainha Bárbara Soeira; Dom Carlos, filho de Dom Luís, e o Barão de Guaré. Em alguns ramos da encantaria fala-se na FAMÍLIA DA GAMA , que também seria formada por reis, rainhas e fidalgos.
FAMÍLIA DA TURQUIA: É chefiada por um rei mouro, Dom João de Barabaia, que lutou contra os cristãos. É a esta família que pertencem as irmãs Mariana, Jarina e Herondina, as princesas que vêm ao mundo não apenas na forma de turcas, mas também como marinheiras, ciganas, índias ou aves de belas plumagens. Em algumas casas, a Família da Turquia é incorporada à Família do Lençol.
FAMÌLIA DA BAHIA: Família de encantados farristas, que gostam de beber, têm a sexualidade aflorada e vivem arrebatados em mundanidades, como em esquinas, bares, rodas de samba e capoeiras.
FAMÌLIA SURRUPIRA: Família composta por índios que não foram catequizados; versados nos segredos da pajelança. Trabalham com as artes da cura e são profundos conhecedores das plantas.
FAMÍLIA DA MATA: Também conhecida como "família de Codó", é formada por vaqueiros, boiadeiros, índios e negros que saíram do litoral maranhense e forma arrebatados nas matas próximas à cidade de Codó.
FAMÍLIA DA BANDEIRA: Formada por desbravadores das matas, bandeirantes, caçadores de onça, mateiros e pescadores que se encantaram durante suas atividades.
 JUREMÁ: Espaço invisível em que habitam os mestres da jurema e seus subordinados. Há, dependendo da linha do Catimbó, quem trabalhe com cinco ou sete reinos, formados por aldeias ou cidades e habitados pelos Mestres. Para a linha de cinco, os reinos são os do Vajucá, Urubá, Josafá, Juremal e Tenemé (ou Tenema). Para a linha de sete, temos os reinos de Vajucá, Juremal, Urubá, Tigre, Canindé, Josafá e Fundo do Mar.
JUREMA: Bebida tirada da árvore do mesmo nome; bastante utilizada nos ritos de pajelança dos tupis. Chegou aos catimbós, aos candomblés de caboclo, ao Xangô do Recife e a algumas linhas da umbanda. Existem as árvores da jurema-branca e da jurema-preta. A bebida ritual é feita, na maioria das vezes, com a jurema-branca. É muito usada na linha de cura, fortalecida por cantos de evocação.
CORTE DE ESPÍRITOS ANCESTRAIS: Vertente da encantaria venezuelana, com ramificações na Colômbia. Os espíritos ancestrais se dividem em 21 cortes, lideradas por uma trindade formada por María Lionza, o Negro Felipe e o indio Guacaipuro. Temos, dentre outras, as cortes de malandros (onde se destacam o malandro Ismael, o malandro Ratón e Isabelita, a moça das esquinas); índios; africanos; chineses; médicos; jovens; vikings (sim, formada por espíritos de navegadores escandinavos que por aqui se encantaram em tempos imemoriais); libertadores (espíritos dos que lutaram nas guerras de libertação nas Américas); etc. A corte chamarrera, a mais famosa, é aquela formada por espíritos que conhecem os segredos das folhas e das mandingas diversas, liderada por Don Nicanor Ochoa Pinto, o "viejo amado". É uma corte muito ligada a dos "juanes" (a corte de "juanes encantados", os curandeiros dos males, como don Juan de los cuatro caminos, don Juan del tabaco, don Juan de los cuatro vientos, don Juan de los suspiros, don Juan de la calle, don Juan del amor, don Juan de las aguas, don Juan del dinero, don Juan del progreso, don Juan de la fuerza,don Juan del pensamiento, don Juan del chaparro etc.).

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