segunda-feira, 6 de junho de 2016

A LIÇÃO DA ARARINHA

Uma das maiores aventuras civilizatórias do Brasil é a do encontro entre a tradição do culto aos voduns do Maranhão, na linha do tambor de mina, e a pajelança indígena do Pará. O tambor de mina ganhou outras cores, absorvendo novas entidades ao seu panteão. Essa é a força arrebatadora da encantaria de caboclo.
Não custa lembrar que na encantaria o termo caboclo não é sinônimo de indígena, podendo ser genericamente utilizado para designar entidades de variadas origens. Os caboclos, ou encantados, se organizam em famílias, com um chefe e suas linhagens, que abrangem turcos, índios, reis, nobres, marujos, princesas, etc.
As encantadas e encantados não são espíritos desencarnados; são pessoas, ou animais, que viveram, mas não chegaram a morrer; sofreram antes a experiência do arrebatamento: foram morar no invisível. De vez em quando saem de lá, pegam carona na asa do vento e vêm à terra, no corpo das iniciadas, para dançar, dar conselhos, curar doenças, jogar conversa fora e matar as saudades do povo que continua por aqui.
Mariana é encantada. Uma turca que passou pelo arrebatamento ao chegar ao Brasil, com suas irmãs Rondina e Jarina. Desde então, cruza caboclamente as nossas terras, se apresentando como índia, cigana, marinheira e até mesmo como uma arara de plumagem esplêndida.  
Tomando Mariana como exemplo, percebo que, mais do que fenômeno religioso, a encantaria é um campo fecundo para se pensar as artes da alteridade, do trânsito pelo transe, da necessidade de se relacionar com o outro, da aventura de pensar as linguagens do corpo como campo de possibilidade plurais para experiências de liberdade.
A encantaria traz o cruzamento entre as diferenças que se encontram no arrebatamento. O arrebatado é aquele que se colocou disponível para mudar, alterar o corpo, transformar a experiência, atravessar e enxergar de outras formas a vida como caminho de negação peremptória da morte.
Quem não vê nisso um manancial para a elaboração reflexões descolonizadas é porque está mesmo normatizado pelas gramáticas enfadonhas do desencanto. Para mim, neste aspecto, não há saída para a crise em que estamos mergulhados até o pescoço se nossas perspectivas de reconhecimento do outro não forem alargadas, inclusive no terreno fértil da teoria do conhecimento e das reflexões sobre o ser.
Urge a batalha em todos os humaitás que aparecerem pela frente. Urge o enfrentamento no campo das representatividades formais e na disputa política imediata. Mas isso não contradiz, muito pelo contrário, a tarefa de arrebatar cotidianamente o mundo pela mirada das alterações das gramáticas de percepção da vida, para que não sejamos os cachorros que perseguem os próprios rabos. 
A saída está na nossa cara. Ela exige, todavia, que a resistência seja só um aspecto do ato maior da retomada da existência como potência transformadora de mundo. Reexistir: isso é coisa que Mariana faz em sua trajetória descolonizada e sublime de cabocla da Turquia e, ao mesmo tempo, ararinha nossa. Ela é pássara que, ao burlar a morte, alça o voo maior que a vida que lhe fora reservada.


  (Pai Francelino de Xapanã, sacerdote de vodun que encantou-se em 2007, canta para a cabocla Mariana)

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