sexta-feira, 10 de junho de 2016

O BRASIL NÃO ESTÁ NUMA ENCRUZILHADA (MAS DEVERIA)

Acabei de ler em um site de jornalão que o Brasil está numa encruzilhada. Sei não. Me parece que o problema é exatamente o inverso: o Brasil não está numa encruzilhada. Explico rapidinho, cá do meu modo, essa matutação. Encruzilhemos o ponto. 
Os gregos e romanos ofertavam aos humores de Hécate, a senhora dos mistérios da lua nova, oferendas nas encruzilhadas. No Alto Araguaia, era costume indígena oferecer-se comidas propiciatórias para a boa sorte nos entroncamentos de caminhos. Anchieta menciona os "deixados" indígenas ofertados ao curupira nas encruzilhadas dos atalhos. O profeta Ezequiel viu o rei da Babilônia consultando a sorte numa encruzilhada. Gil Vicente, no Auto das Fadas, conta a história da feiticeira Genebra Pereira, que vivia pelas encruzilhadas evocando o poder feminino. 
Macumbemos: o Aluvaiá dos bantos, o Exu dos iorubás e o Legbá dos fons, divindades propiciadoras do movimento e dos saberes do corpo, moram nas encruzas e passeiam nos mercados. Em quimbundo, um dos idiomas do imenso complexo banto, encruzilhada é "pambu-a-njila"; provável origem da expressão Bombogira e o local de seu culto. Daí abre-se o caminho para se chegar às pombagiras, com toda a dinamização que os contatos sugerem nas praias americanas (e que acabam nos levando, inclusive, às tabernas da Andaluzia, com o acréscimo de força vital trazido pelos ciganos). Nzazi imolou em uma encruzilhada do Congo o bode branco para fazer, esticando a pele do bicho num tronco oco, Ingoma, o primeiro tambor do mundo. Os legbasi do antigo Daomé penduravam cabaças e esculturas fálicas, símbolos do feminino e do masculino, nas encruzilhadas. Foi numa encruzilhada também que Robert Johnson teria pactado com o diabo e o cachorro do mito de Irosun Ogbe, no corpus de Ifá, tería se distraído pelas atrações mundanas, a ponto de perder o cargo que poderia exercer para uma serpente.
Com tudo isso, quero crer, o problema do Brasil não é estar numa encruzilhada. É não estar nela, desprezando nas linhas retas da normatividade de seus políticos, sabichões, doutos mestres, chefes de família, homens de bem, bem-sucedidos, revolucionários e conservadores, a enorme potência descolonizatória e de desregramento dos mundos que o cruzo das encruzas, pensado potentemente, poderia trazer. Padecemos de desencanto. Ir para as encruzilhadas pode ser, quem sabe, um ponto de viração. Eu, que sou da encruzilhadas, escrevi certa feita e repito: desconfio e tenho medo é dessas gentes dos caminhos retos.

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