quarta-feira, 1 de junho de 2016

O RACISMO NOSSO DE CADA DIA

Os dias recentes escancararam com dureza o racismo sedimentado na sociedade brasileira. Em curto espaço de tempo um clube de ricaços estabeleceu que babás não podem frequentar os mesmos banheiros que as patroas, uma madame mandou um funcionário de um supermercado voltar para a senzala e uma técnica de enfermagem foi chamada de macaca do cabelo duro dentro de um hospital da marinha.
O racismo é um preconceito que só pode ser compreendido se pensarmos a raça como uma categoria sócio-política-cultural historicamente constituída. É nas nossas praias um fenômeno colonialista, que se manifesta com mais intensidade a partir de percepções das características físicas que denotariam inata inferioridade de alguns grupos sociais; em especial, entre nós, negros e índios.
Engana-se quem acha, porém, que o racismo se limita ao campo da percepção social das características físicas. Ele é um fenômeno que se desdobra em outros campos de percepção. Uma das mais frequentes, praticadas e menos percebida manifestações do racismo, se estabelece a partir da inferiorização dos bens simbólicos daqueles a quem o colonialismo submeteu. Quando consideramos que as crenças, danças, comidas, visões de mundo, formas de celebrar a vida, enterrar os mortos, educar as crianças, etc. de determinados grupo são inferiores, tomando como referência o padrão canônico da tradição ocidental, estamos operando no campo do racismo.
Quando achamos que apenas elementos externos aos índios e africanos podem inseri-los no que supomos ser a história da humanidade – a ciência, o cristianismo, a democracia representativa, a economia de mercado, a escola ocidental, etc. – estamos sendo cordialmente racistas, ainda que cheios de genuína boa vontade. As universidades, com as louváveis e cada vez mais vigorosas exceções que infelizmente ainda confirmam a regra, são centros por excelência de um tipo muito sofisticado de racismo: o epistemológico. Em poucos espaços o saber como projeção de poder é mais intenso e cruel.
Muitas vezes as próprias ações afirmativas – que defendo veementemente – apenas reproduzem o racismo. Quando incluímos os historicamente excluídos nas universidades, sem pensar, todavia, em ampliar o arco de saberes que a universidade ensina, não estaremos apenas corroborando com a desqualificação simbólica das culturas daqueles que tentamos incluir? Índias e negras devem entrar nas universidades para aprender a pensar como europeias deslocadas e confirmar que só é possível filosofar em alemão? Não custa lembrar, como alertava Fanon, que um dos mais cruéis e bem-sucedidos desdobramentos do racismo colonialista é a capacidade de fazer a vítima do preconceito acreditar que a sua cultura é mesmo inferior.
A conclusão desse arrazoado é uma só: a chance de o Brasil lutar contra o racismo é inverter a máxima simplória e desonesta de Ali Khamel e admitir que somos profundamente racistas. Mesmo aqueles que execram o racismo inscrito na impressão física podem ser profundamente racistas nas dimensões simbólicas e mais minuciosas em que o racismo se inscreve como prática.
Você jamais chamaria alguém de macaco, mas acha que macumba é barbárie ou manifestação pitoresca, que batuque é coisa inferior, que só o ocidente produziu formas sofisticadas de se pensar o mundo, que a maracá do pajé é folclore e a cruz é potência encarnada da fé, que uma ópera é grande arte e um desfile de escola de samba é apenas carnaval, que Zeus pode ser ensinado em escolas mas Xangô não pode, que um livro conta histórias e um tambor só faz barulho...? Não se sinta confortável por não achar que um ser humano é um macaco e me permita dizer com todas as letras: isso é racismo também.

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