quarta-feira, 8 de junho de 2016

QUEM PODE NOS TIRAR DA MORTE?

Perguntas complicadas não faltam nos dias turbulentos. Fui inquirido - eu e um grupo de convivas - sobre se haveria algum político capaz de apontar direções para o Brasil neste momento. Minha resposta foi quase imediata e levada a princípio como galhofa pelo grupo. Mas falei sério e explico.

Nas "Cartas do Rei de Ardra e do Rei do Daomé para Sua Alteza Real, Documentos dos Arquivos Portugueses que Importam ao Brasil, n. 12", está dito que em 1804, o rei do Daomé, Adandozam, escreveu uma carta a D. João, príncipe de Portugal, que seria depois o nosso D. João VI. Cito: 

"Meu adorável mano: há muito tempo que fiz patente ao meu grande deus Legbá, que pelos seus grandes poderes, lá no lugar onde habita, que levasse em gosto e louvasse a amizade que eu desejava ter com os portugueses, e juntamente o oferecimento e trato que queria fazer...". 

Legbá aparece nesse trecho da carta de Adandozam em algumas de suas potências mais intensas: o de vodum fazedor das relações, trançador e traçador de caminhos, dinamizador dadivoso das relações sociais e diplomático firmador das capacidades de humanas de estar nele mesmo e no outro, como dínamo transformador e incessante inventor de existências. 

Legbá não é o anulador tirânico das diferenças; ele é o comunicador que possibilita o convívio fecundo entre elas. Gosta de fluxos, é inimigo do conforto e vez por outra desarticula tudo para estabelecer a necessidade de se fundar a experiência em bases diferentes. 

Legbá é a criação incessante e ininterrupta do mundo pela construção permanente de significados para as coisas. É perigoso, já que escapa das limitações do raciocínio conformista que tem pânico do inesperado e não compactua com fórmulas que reduzem a vida a um jogo de cartas marcadas, com desfecho previsível.

Não bastasse isso, é Legbá a própria vivacidade. A ausência de Legbá é a morte, e a morte, para a turma do Daomé, é um estado de despotência dos viventes; uma impossibilidade de vida. Há mortos muito mais vivos que os vivos e vivos muito mais mortos que os mortos. Vive quem está disponível para Legba (prometo qualquer hora dessas escrever sobre o dia em que Heidegger fez uma oferenda a Legbá numa encruzilhada entre a Alemanha e o Daomé e o vodum soprou para ele, com seu assovio contador de histórias, o estar-aí)

Legbá é, também, sem deixar de ser indivíduo, um ser coletivo (o Agbo-Legba), homem e mulher (Legbayonu e Minona, o secreto maior do feminino). Em suma: mediador entre mundos.

Legbá, o político que pode nos tirar dessa, é a potência da transformação encarnada na ação das mulheres e dos homens. Ele é, como costumo definir, um estado de disponibilidade para transformar o mundo que está potencialmente em cada um de nós. 

Em resumo: nós somos, em estado de Legbá, os que podemos nos conduzir para os terreiros mais amplos da alegria.

Un j’avalu hùn Legbá!

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