terça-feira, 5 de julho de 2016

CARTA AOS MEMBROS DO COMITÊ OLÍMPICO BRASILEIRO

Foi com profunda preocupação que recebi a notícia de que as religiosidades brasileiras afro-indígenas não foram incluídas pelo COB no Centro Ecumênico do Rio, que a rigor nem deveria existir, montado para as Olimpíadas de 2016. Em um contexto em que demonstrações de intolerância religiosa se tornam cada vez mais costumeiras, o "esquecimento" não se coaduna com os princípios da tolerância e do respeito ao pluralismo das diferenças, elementos básicos para o convívio fraterno da comunidade, que deveriam pautar os jogos de  2016.

Certa feita escrevi um texto sobre a religiosidade brasileira e a relação de nosso povo com as divindades, coisa que o COB parece desconhecer. Cito alguns trechos, nesse momento em que nossos ritos sofrem toda sorte de ataques, do que então expressei:

“Somos as filhas e filhos do mais improvável dos casamentos, entre o compadre Exu e a Senhora Aparecida – a prova maior de que o amor existe. E Tupã, que se vestiu com o cocar mais bonito para a ocasião, celebrou a cerimônia entre a cachaça e a água benta.

Uma das nossas mãos está calejada pelo contato com a corda santa do Círio de Nazaré – a outra tem os calos gerados pelo couro do atabaque que evoca as entidades. As mãos do Brasil e do seu povo.

Nossos ancestrais passeiam pela vastidão da praia sagrada dos índios de Morená, retornam à Aruanda nas noites de lua cheia, silenciam no Orum misterioso das almas e florescem encantados nas folhas da Jurema. 

Os guerreiros de nossas tropas trazem a bandeira do Humaitá, o escudo de Ogum e o estandarte da pomba branca do Divino Espírito Santo – a mesma pomba que pousou na ponta do opaxorô de Obatalá. São essas as nossas divisas de guerra e paz; exércitos do Brasil.”

Escrevi isso porque nasci e cresci dentro de um terreiro de macumba. Falo dessa procedência com orgulho tremendo. Minha avó era mãe de santo na Baixada Fluminense do Rio de Janeiro, versada nos segredos do candomblé, da jurema e da encantaria. Fui, por isso mesmo, batizado nos conformes da curimba – protegido pelo caboclo Pery e pelo Exu Tranca Rua das Almas e oferecido aos cuidados da lua velha, num terreiro grande de Nova Iguaçu. 

Os empresários do COB talvez desconheçam, mas os deuses que vieram dos porões dos tumbeiros e das florestas do Brasil amenizaram séculos de dor e sofrimento e forjaram a armadura da resistência e da dignidade de um povo. Os deuses do Brasil nos ensinaram a olhar a natureza com os contornos da poesia e a delicadeza dos ritos imemoriais. Essa é uma tessitura de olhar o mundo que uma Olimpíada deveria prezar.

Divinizamos os homens e humanizamos os deuses para construir uma civilização amorosa nos confins do ocidente. Em nome do oxê de Xangô, do pilão de Oxaguiã, do xaxará de Omolu e do ofá de Oxossi não há um só genocídio perpetrado na face da terra. Nunca houve qualquer guerra religiosa em que se massacraram centenas de milhares de seres humanos em nome da fé nos encantados e orixás. A insígnia de nossos deuses nunca foi a mortalha de homens comuns – nós apenas batemos tambor e dançamos, não morremos ou matamos pela nossa fé.

Espero que os senhores saibam que engana-se quem acha que o racismo se limita ao campo da percepção social das características físicas; certamente a sua manifestação mais odiosa. Ele é um fenômeno que se desdobra em outros campos de percepção. Uma das mais frequentes, praticadas e menos percebida manifestações do racismo, se estabelece a partir da inferiorização dos bens simbólicos daqueles a quem o colonialismo submeteu. Quando consideramos que as crenças, danças, comidas, visões de mundo, formas de celebrar a vida, enterrar os mortos, educar as crianças, etc. de determinados grupo são inferiores, estamos operando no campo do racismo. É exatamente isso que está sendo feito neste momento. 

Que cada um tenha o direito de encontrar o mistério do que lhe é pertencimento, em gentileza e gestos de silêncio, toques de tambor e cantos de celebração da vida. Tudo aquilo, enfim, que se esperaria de um evento de congraçamento entre os povos. 

Olorum Modupé, Nzambi-ampungu!

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