terça-feira, 12 de julho de 2016

SOBRE RAÇA (OU A BARBÁRIE DA CIVILIZAÇÃO)

A morte de Luiza Bairros, a ex-ministra da Secretaria de Políticas de Promoção da Igualdade Racial, abriu as portas do inferno nos comentários dos sites que noticiaram o falecimento. De novo chovem os argumentos mais estúpidos: raça não existe, se o Brasil tem ação afirmativa para pretas e pretas tem que ter para brancos (a falsa simetria predileta dessa turma), e outras baboseiras do tipo. Nada de diferente do velho caldo, enfim, de racismo enraizado, preconceito e falsas simetrias, mostrando que a obra da escravidão continua atuante. 

Quase não tenho mais paciência para responder aos argumentos primários de que raça não existe, mas vamos lá. Recorrerei a um gigante, o senegalês Cheikh Anta Diop, provavelmente o maior intelectual africano do século XX. Pensador potente e descolonizado, Diop insistia na necessidade de firmarmos questão em um ponto crucial: “raça” não é uma condição biomolecular, mas é uma poderosa construção fenotípica e cultural. Neste sentido (uso o exemplo que Diop gostava de utilizar) é possível que um banto sul-africano e um sueco sejam geneticamente mais próximos entre si que entre aqueles de seu próprio grupo. A questão, Diop coloca, é que, nos anos de 1980, na África do Sul, o banto seria vitimado pela violência do apartheid e o sueco seria um homem livre.

Trazendo para o Brasil: sou branco, passei parte da minha vida na Baixada Fluminense e tenho amigos negros. É possível que geneticamente eu tenha muita proximidade com alguns deles. É possível que alguns deles tenham proximidades genéticas com italianos. Não obstante, a polícia nunca me parou nas dezenas de batidas em que amigos meus foram parados, já que para a polícia (e para a esmagadora maioria da sociedade) é a noção fenotípica e cultural das raças que prevalece. Quando falamos de raça, portanto, nos referimos a esta construção que opera na dimensão do racismo e me faz ter, cotidianamente, a proteção da cor da pele. 

A desconstrução disso é processo que ainda anda de gatinhas e pressupõe ações urgentes em vários campos, inclusive no epistemológico. A invenção do eurocentrismo – entendido aqui como a impressão de que a Europa moderna representou o ápice civilizatório da humanidade e de que toda a história da humanidade só pode ser contada a partir dos marcos e códigos que o ocidente produziu – é uma aberração que demanda constante trabalho de enfrentamento e desconstrução.

O poder econômico, a supremacia bélica e o controle das estruturas jurídicas e pedagógicas do colonialismo são os alicerces desta centralidade reducionista, obtusa, desonesta e limitadora.

Eu estudo o samba, e ando cada vez mais convencido que acontece com ele o mesmo processo que aconteceu com o discurso produzido pelo ocidente sobre a civilização egípcia: desafricanizar é a condição e estratégia para reconhecer valor e sofisticação, marcando um recorte com aquilo que seria a barbárie. 

Lendo os comentários bizarros sobre a morte de Luiza Bairros, lembrei-me até de um famoso trecho de Kant sobre negros e brancos: " Os negros da África não possuem, por natureza, nenhum sentimento que se eleve acima do ridículo(...) Não se encontrou um único sequer que apresentasse algo grandioso na arte ou na ciência, ou em qualquer outra aptidão; já entre os brancos, constantemente arrojam-se aqueles que, saídos da plebe mais baixa, adquirem no mundo certo prestígio, por força de dons excelentes."

Enquanto acharmos que " visão de mundo" é a visão ocidental de mundo, e apenas ela, estaremos fritos. A civilização européia, como qualquer outra, é um monumento ao sublime, pois que humana, e um atestado contundente de barbárie, inclusive saida da pena e das crenças de seus maiores representantes.

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