sexta-feira, 29 de abril de 2016

A EPISTEMOLOGIA DO SURDO DE TERCEIRA


Ando matutando, em minhas desconfianças a respeito do que chamo de "gramática dos tambores", sobre a possibilidade dos surdos das baterias das escolas de samba sugerirem um potente campo de reflexões sobre as culturas da diáspora africana no Brasil e apresentarem, ao mesmo tempo, fascinantes possibilidades de elaboração de conceitos que amarrem e desamarrem o mundo. Tento desamarrar ao menos a escrita, sem cair em pormenores sobre teoria musical que poderiam dificultar a compreensão do texto. 

A função do surdo em uma bateria é fazer a marcação do tempo. O samba é um ritmo de compasso binário (1 tum - 2 tum). O surdo de marcação é um tambor grave que marca a referência do tempo da batida para os ritmistas de toda a bateria. O surdo de segunda, menos grave que o de marcação, responde a ele, batendo o primeiro tempo do ritmo. É só escutar as batidas regulares do coração para saber do que se trata.

O surdo de terceira é exatamente aquele que, mais agudo que os outros dois,  preenche o vazio que existe entre uma marcação e outra. Ao contrário da previsibilidade dos outros dois surdos, o de terceira desenha um ritmo cheio de síncopes, quebrando a sensação de normalidade da conversa entre o surdo de marcação e o surdo de resposta. 

O surdo de terceira realiza síncopes o tempo inteiro, entre a regularidade de uma marcação e outra. A síncope é uma alteração inesperada no ritmo e é causada pelo prolongamento de uma nota emitida em tempo fraco sobre um tempo forte. Na prática, a síncope rompe com a constância, quebra a sequência previsível do som e proporciona uma sensação de vazio que logo é preenchida de forma inesperada. 

A tradição da cultura do samba, baseada na oralidade, conta que o surdo de terceira foi inventado por Sebastião Esteves, o Tião Miquimba, discípulo de Mestre André na bateria da Mocidade Independente de Padre Miguel. Contam que Miquimba, em uma noite de temporal em que os surdos de pergunta e resposta não estavam presentes a um ensaio da bateria, pegou um surdo e começou a tentar marcar o compasso binário e, ao mesmo tempo, intercalar batidas entre um tempo e outro. Mestre André gostou e mandou fazer um surdo mais agudo e menor que os dois clássicos. Ele, o novo instrumento, passaria a cortar, sincopar e desenhar batidas inusitadas entre as marcações regulares. Em entrevistas sobre isso, Tião Miquimba usou a fabulosa expressão "imaginação percussiva" para explicar o babado.   

Conheço poucas histórias - e aqui vale mais, como nas culturas orais, o sentido do que é relatado que o rigor factual - mais potentes do que essa para se pensar as culturas da diáspora. Elas são culturas de fresta; aquelas que driblam o padrão normativo e canônico e insinuam respostas inusitadas para sobreviver no meio que normalmente não as acolheria O surdo de terceira inventa a vida no desconforto, na precariedade, no perrengue de ter que preencher o vazio com o som que chama o transe dos corpos que sambam.

Os que me acompanham sabem que grito pela necessidade de se buscar olhares mais originais, contra a tendência de normatização, unificação e planificação dos modos de ser das mulheres e dos homens no mundo.  Nossa tarefa brasileira é a de superar a exclusão e, ao mesmo tempo, superar a ideia da missão civilizadora que insiste na generalização do acesso das camadas populares aos padrões de representatividade, consumo e educação sugeridos pelo cânone. De um lado, é a morte física. Do outro, a morte simbólica da inclusão normativa, domesticada e impotente. Precisamos de surdos de terceira que surpreendam e desconcertem o padrão consolidado.

A criação do surdo de terceira deveria ser ensinada nas escolas. O problema é que somos educados não apenas para ignorar, mas para desprezar as culturas de síncope, aquelas que subvertem ritmos, rompem constâncias, acham soluções imprevisíveis e criam maneiras imaginativas de se preencher o vazio do som e da vida com corpos, vozes e cantos.

A hora é a de sair do conforto dos sofás epistemológicos e pular de cabeça na encruzilhada da alteridade, menos como mecanismo de compreensão apenas (normalmente estéril) e mais como vivência compartilhada do que pode ser o mundo. Virar mais as latas e não virar lattes. 

Tião Miquimba e Mestre André, vigorosos intelectuais do Brasil que sobreviveu aos tumbeiros e fez da chibata de surrar o lombo a baqueta que bate no couro, deram o recado. Nós precisamos escutar o corte potente e inusitado, que desenha e desconforta, do surdo de terceira.


quinta-feira, 28 de abril de 2016

DESAMARRA O PONTO E NÃO RESMUNGA


Escutei dia desses, de um sujeito com ares de estátua de senador do Império indignado com os fogos de São Jorge às cinco da matina, que o "zé povinho", mesmo no meio da maior crise, insiste em fazer festa e não toma jeito. É por isso que o Brasil não presta; arrematou.

Eu sei exatamente o Brasil que ele acha que não presta: é o país do samba, do tambor e da festa. Acontece que eu cresci neste Brasil que horroriza o canônico resmungão. Sou neto de mãe de santo e sobrinho de um ex-presidente de bloco de enredo. Eu teria, neste caso, duas hipóteses: execrar essas coisas (ou ao menos algumas delas); ou vivenciá-las como componentes amorosos da minha vida. Prevaleceu a segunda.

O problema é que meu Brasil sentimental está namorando o beleléu. Setores do bonde da aleluia acham que umbanda e candomblé são do diabo e incendeiam terreiros com o olhar complacente das autoridades. Macumba só é boa quando serve para descolados fazerem moda e alternativos falarem de orixá como se fosse signo do zodíaco e terapia de autoconhecimento. Os cartolas do futebol, em conluio com os empresários da bola e a bandidagem das empreiteiras, resolveram que estádio é arena multiúso e torcedor é cliente com poder aquisitivo. 

A coisa não para aí. O Carnaval também anda em perigo: as escolas de samba sucumbem à lógica dos grandes eventos e desfilam para um Sambódromo cheio de gringos com sono. O carnaval de rua passa por um processo de uniformização — a antítese da folia e parte de uma tendência mais ampla de higienização social da festa — que quer incluir até a cerveja que o folião terá que tomar.

Acho, todavia, que zabumbar no fio da navalha é a nossa saída mais potente. Meus avós tiveram a sabedoria de me ensinar o seguinte: a gente não faz festa porque a vida é fácil. A gente faz festa exatamente pela razão contrária. A cultura do samba veio desse aparente paradoxo. Não se samba porque a vida é mole. Se samba porque a vida é dura. O sentido das celebrações, ao menos para mim, é esse. Festa e fresta são quase a mesma coisa e não concebo uma sem a outra. 

Cada um que elabore os sentidos que forem convenientes para as festas. O fato é que a ideia de felicidade, esta sim, sempre me pareceu meio conformista. A ideia de alegria, ao contrário, me parece tremendamente subversiva e ligada, como contraponto desafiador, aos perrengues e sacanagens da vida e da sua mais puta companheira, a morte. Desde que o samba é samba é assim. 

Minha onda, por isso mesmo, é a de mandar a felicidade para a casa do chapéu e desejar, dando nó no rabo da tirana, que a gente batuque cada vez mais alto, dispute cada vez mais as esquinas, ostente e encante cada vez mais os espaços com os fogos de Jorge e os saravás de Ogunhê. 

Eu ritualizo a vida e acho que é no arrepiado das arrelias e na plenitude dos corpos em trânsito que o mais subversivo dos enigmas há de nos salvar: a capacidade criadora da alegria nos infernos. Para o douto sabichão com nostalgia das europas, mando um ponto de amarração das encantarias caboclas:

Cantei samba na Bahia
Dancei Mina em Maranhão
Tubarão tu não me morde
Eu abro os braços:
Não, não, não!

quarta-feira, 27 de abril de 2016

A CIDADE ERA O MARACANÃ


O Maracanã talvez tenha sido a maior encarnação, ao lado das praias, de certo mito de convívio cordial, ao mesmo tempo sórdido e afetuoso, da cidade do Rio de Janeiro. O Maraca foi pensado, em 1950, para ser frequentado por torcedores de todas as classes sociais, mas não de forma igualitária. Ele foi espacialmente dividido em sua concepção, como se cada torcedor tivesse que saber qual é a posição que ocupa na sociedade hierarquizada: os mais pobres na geral, o arco da classe média nas arquibancadas, os mais remediados nas cadeiras azuis e os bambambãs nas cadeiras cativas. 

Havia algo de perverso na antiga geral. Dela praticamente não se via o jogo. Sem visão panorâmica do campo e noção de profundidade, o torcedor ficava em pé o tempo inteiro. Além disso, o geraldino corria o risco permanente de ser encharcado pela chuva e alvejado por líquidos suspeitos e outros objetos que vinham de cima.

Esta fabulação de espaço democrático que era o antigo Maracanã, todavia, ainda permitia duas coisas que nos faziam acreditar em uma cidade menos injusta: a crença num modelo de coesão cordato, em que as diferenças se evidenciavam no espaço, mas se diluíam em certo imaginário de amor pelo futebol; e a possibilidade de invenção de afetos e sociabilidades dentro do que havia de mais precário. A geral – o precário provisório – acabava sendo o local em que as soluções mais inusitadas e originais sobre como torcer surgiam.

A geral era, em suma, a fresta pela qual a festa do jogo se potencializava da forma mais vigorosa: como catarse, espírito criativo, performance dramática e sociabilização no perrengue.

Liquidar a geral, a rigor, poderia ser defensável, considerando-se a precariedade do espaço. O problema é que ele veio acompanhado de um projeto muito mais perverso: não era a geral que precisava sumir; eram os geraldinos. Na arena multiuso, interessa um público restrito, selecionado pelo potencial de consumo dentro dos estádios e pelos programas de sócios torcedores. Facilita-se assim a massificação das transmissões televisivas por canais a cabo e a captura da própria estética do jogo pelos grandes grupos de comunicação, com as suas 120 câmeras espalhadas pelo estádio. 

O fim da geral foi, simbolicamente, o esfacelamento de um pacto de cordialidade que usou o manto do consenso para desenhar simulacros de democracia na cidade. Mas até isso já era.  Prevalece agora, nos estádios e nas metrópoles, a lógica da exclusão explícita. A morte do Maracanã, o velho, é um recado: a cidade democrática não existe mais nem como fábula. O jogo, entretanto, não terminou. O carioca miudinho há de reinventar, como sempre fez, seus afetos fora das arenas e e encontrar novas frestas para arrepiar a vida de originalidades e tensionar o consenso cordial na empresa travestida de cidade; aquela mesma que não lhe quer.  


sábado, 23 de abril de 2016

DEVOÇÃO CARIOCA

O dia começou cedo. Acordei às 3:40 da matina para, cumprindo uma tradição familiar que julguei ser minha tarefa retomar, participar da alvorada de São Jorge no Campo de Santana (que para mim é mais macumbada que a de Quintino, onde não vou desde que morreu o Paulinho, o Rei do Galo, que cozinhava o galo de Ogum no dia de hoje). 

Descendo do ônibus, já escutei o atabaque do mesmo ogã que nos últimos dez anos monta um gongá e rompe a manhã cantando curimbas de umbanda e omolokô, as macumbas cariocas. Tinha mendigo virado na caboclada, o que já é um ótimo sinal. Encontrei amigos, me comovi com a alvorada, acendi minha vela na entrada da igreja, voltei para a curimba. Sai de lá às 7 h, comprei pão e acabei de chegar em casa. A família dorme. 

É certo que São Jorge, simbora embarcar no neologismo, foi "cultizado". Virou mesmo cult para uma galera. Mas mais certo que isso é perceber que São Jorge é mesmo o santo carioca, de uma turma miudinha que ainda resiste ao arrastão do bonde da aleluia, continua ritualizando a vida em altares e terreiros e não vê a menor contradição nisso. Ouvidos atentos, escutei uma senhora dizer, na fila para entrar na igreja, que está completando hoje 27 anos de santo feito. Os afeitos a essencialismos, não sou um deles, dirão que São Jorge não é Ogum e Ogum não é São Jorge. Concordo: Ogum não é São Jorge. Mas sejamos simples: para quem acha que Ogum é São Jorge, ele é. Também concordo. Jorge de Lima já dizia que a mentira pra quem não crê é milagre pra quem sofreu. 

Ogum é, sejamos mais simples ainda, tudo aquilo que quer ser. Para ele fui iniciado, recebi a faca e este é certamente o orgulho da minha vida. Ogum é magma; é força que não se define nas nossas ocidentalizações que insistem em desamarrar os enigmas. Ogum fala pelo adarrum e pelo barravento, beirando a linha do trem: outras gramáticas. 

Eu só sei que vendo o gongá, ouvindo a curimba e pedindo pelos meus na hora da alvorada, saí novamente convencido de que há um Rio de Janeiro que ainda pulsa nas maneiras que a nossa gente ferrada encontrou para dar sentido - pela festa, pela devoção e pelos corpos em transe - à vida.

segunda-feira, 18 de abril de 2016

LIBERDADE NA FOLIA [UM LOUVOR AO PODER FEMININO]


As brasileiras dançam no Baião. Negras senhoras, donas do segredo da ancestralidade, zeladoras do tempo e da tradição de Massinoukou Alapong, sacerdotisa da Costa do Ouro que chegou ao Brasil, no porão de algum tumbeiro, em meados do século XIX.  Massinokou Alapong, que adotou entre nós o nome de Basília Sofia, ajudou a civilizar esse chão ao fincar em São Luís do Maranhão os batuques, cantos, danças e mandingas do seu povo. 

As negras dançam. Negras senhoras que continuam fazendo, na Casa Fanti Ashanti, a festa que Alapong ensinou: o Baião de Princesas. Saias coloridas, leques, colares de contas, sandálias, adornos de cambraia e cheiros de alfazemas vestem de dignidade e realeza as sacerdotisas que, com a leveza do mistério, entregam seus corpos-totens para que as encantadas venham, uma vez por ano, dançar entre os viventes. E como dançam as encantadas, e como rodopiam e revigoram a vida - pois que a morte não há - em cada rodopiar.

E que toquem as violas, violinos, sanfonas e  pandeiros no batuque do Baião. Foi esse o jeito que Alapong encontrou para despistar a polícia, que não queria festas com cantos acompanhados pelos tambores das Áfricas. Foi esse o jeito que Alapong, a negra velha Basília, inventou para chamar as passeadoras - encantadas em pedra de rio, areia de praia, flor de manacá-cheiroso, tronco de jeretataca, croa, olho de serpente, jetirana e primavera-de-caiena.

Homem não dança no Baião de Princesas. É a festa do poder feminino - o maior que há - , é a celebração em canto e sonho do domínio matriarcal  da ancestralidade, perpetuada em sensações dadivosas que nós, os homens, somos incapazes de conceber. É por isso que só as mulheres dançam quando o forrobodó começa.

Mas o Baião é mais do que isso. É a celebração da dignidade fundamental de empregadas domésticas, cortadoras de cana, donas de casa, feirantes, cozinheiras, vendedoras de cheiros da terra, merendeiras, faxineiras e guerrilheiras de um Brasil que, às vezes, insiste em ignorar o Brasil. São elas, essas brasileiras fundamentais, que rodopiam no salão embandeirado de brasilidades.

E eu ouço o Baião e fico pensando nos pais de famílias de classe média e alta que sonham em mandar as filhas e filhos adolescentes para estudar na Europa, nos Estados Unidos, no Canadá, na Austrália e nos infernos. A explicação é simples: a molecada vai conhecer outras culturas e aprender novas línguas. Sem problemas; acho que toda experiência pode ser relevante. Mas e a nossa língua, cultura e canto; o cheiro da aldeia, a memória dos nossos mortos, a bandeira das nossas guerras e a dignidade das mães ancestrais? Quem ensinará aos meninos e meninas? 

Um dos cantos mais bonitos do ritual do Baião diz, com singeleza comovente e falar brasileiro, o seguinte:

O meu pai me deu um livro
Que eu estudava noite e dia
Pra mim fazer o dever
Pra ser livre na folia 

É esse, meus camaradas, o mantra das delicadezas do Brasil, canto do povo miudinho, povo valente de mulheres e  homens comuns. O Brasil que me comove, arrebata e serpenteia feito as saias das negras velhas do Baião de Princesas.

Saias e alfaias de negras velhas onde dançam, encantadas, Dandara, Luísa Mahim, Maria Quitéria, Menininha, Mãe Senhora, Aninha de Xangô, Iara, Elenira, Zuzu, Ana Maria e as marias todas desse povo inteiro.

Esse é o livro que precisa ser lido, o presente dos ancestrais, tradição dos avós,  lição dos tumbeiros, aldeias e portas de fábricas - porque nós estamos aqui para dançar, cantar, reverenciar e lutar feito as malungas que cruzaram a calunga grande.

Nós nascemos, e nossas mulheres nos ensinam,  para a liberdade na folia e para os encantamentos em raiz da terra no calor da luta.

Abraços!

(Os interessados nas canções do baião podem encontrar várias delas reunidas, com arranjos primorosos, nos trabalhos do grupo A Barca. Indico, sobretudo, o cd  Baião de Princesas, lançado pela gravadora CPC-UMES)


domingo, 10 de abril de 2016

A BELEZA DA CORTE QUE CURA

Não duvido que as entidades da "corte chamarrera" da Venezuela têm cruzamentos com nossas encantarias. De minha parte, confesso que essa é uma das manifestações de religiosidade afro-íbero-ameríndia que mais me emocionam na grande América.  Quase ninguém conhece, já que o vício do cânone nos devora no sórdido artifício de nos fazer crer apenas em nossos saberes letrados e ignorar as sapiências que se escancaram bailando em outras percepções de mundo. 
Os venezuelanos dividem os espíritos ancestrais em 21 cortes, lideradas por uma trindade formada por María Lionza, o Negro Felipe e o indio Guacaipuro. As cortes funcionariam, para ser mais claro e guardadas as diferenças, como se fossem as divisões das linhas de umbanda.
Temos, dentre outras, as cortes de malandros (onde se destacam o malandro Ismael, o malandro Ratón e Isabelita, a moça das esquinas); índios; africanos; chineses; médicos; jovens; vikings (sim, formada por espíritos de navegadores escandinavos que por aqui se encantaram em tempos imemoriais); libertadores (espíritos dos que lutaram nas guerras de libertação nas Américas); etc.
É irresistível pensar em um encontro entre Seu Zé Pilintra e o malandro Ratón. Anseio também - se me animar, vai que faço - um estudo encruzilhado entre as nossas Padilhas e Mulambos e as Isabelitas do país vizinho. Penso nos vikings e logo me lembro da corte de Dom João de Bessarábia e dos turcos encantados que pararam no Maranhão. E se não temos os nossos libertadores (ainda bem; topar com D. Pedro I ou Bonifácio numa guma seria muito para mim), temos a caboclada que lutou na Guerra de Independência da Bahia.
A corte chamarrera, a que mais me interessa, é aquela formada por espíritos que conhecem os segredos das folhas e das mandingas diversas, liderada por Don Nicanor Ochoa Pinto, o "viejo amado". É uma corte muito ligada a dos "juanes" (a corte de "juanes encantados", os curandeiros dos males, como don Juan de los cuatro caminos, don Juan del tabaco, don Juan de los cuatro vientos, don Juan de los suspiros, don Juan de la calle, don Juan del amor, don Juan de las aguas, don Juan del dinero, don Juan del progreso, don Juan de la fuerza,don Juan del pensamiento, don Juan del chaparro etc.).
A possibilidade de encantar as folhas - que os iorubás entregam a Ossain; os bantos a Katendê - é dos mais fortes cruzamentos que existem entre as Áfricas e as Américas indígenas. Se a isso acrescentarmos as jaculatórias das benzedeiras do catolicismo popular ibérico, imaginem só o quanto de sofisticação, beleza, poesia e conhecimento das jinsabas este legado magnífico pode nos proporcionar...
Os cantos são lindos, meus deuses. Mandinga, que eu só consigo me situar na vida a partir desses saberes! E antes que me perguntem, é claro que acredito. Não vejo o menor sentido em não acreditar nessas coisas e tenho horror aos desencantadores do mundo. Eu não creio e não me interesso é por revoluções individuais ou coletivas que ignorem a mirada do encanto. Isso é bonito, gente!
Como só quero estudar isso pelo resto da minha vida (e eu tenho vida pácas ainda), só me resta perguntar: como é que eu faço para estudar isso tudo?
Escutem, por favor. Escutem, por favor. É beleza, minha turma... E a nossa civilização afundando em tarja preta com tanta coisa encantada para conhecer.



sábado, 9 de abril de 2016

CANJIRAS BRASILEIRAS: CICLO DE AULAS

Amizades, ontem coloquei na rede uma postagem sobre um curso livre que pretendo oferecer. Reproduzo no blog: "Vem aí um curso introdutório para interessados - iniciados ou não - em saber diferenciar e aproximar minimamente a umbanda, o catimbó de jurema, os reinos do juremá, a nação omolocô, as vertentes diversas da encantaria, os ritos de mina, os candomblés de orixás, inquices e voduns e similares: macumbas. Aguardem. Quero trabalhar com um grupo pequeno e comprometido e o projeto das aulas, todo montado a partir de saberes e conceitos derivados desses universos e dos seus cantos, está ficando bonito. Em breve divulgo um email para inscrições. "

Pois bem, a receptividade foi ótima e farei o curso. Os interessados devem mandar um email para canjirasbrasileiras@gmail.com . No email, coloquem a disponibilidade de horário para encontros quinzenais. As aulas ocorrerão no Centro da cidade e posso abrir mais de uma turma. Nas respostas aos emails, passo todos os detalhes (duração do curso, valor das aulas, local, etc.). Adianto que um ciclo de aulas durará três meses, com dois encontros mensais. Com esse projeto das "canjiras brasileiras" pretendo montar um repertório de diversos cursos, de durações variadas, sobre as temáticas que estudo. O parceiro do projeto é, como sempre, o Al-Farabi, um espaço central que se afirma cada vez mais como polo disparador de coisas sobre as culturas populares do Rio e do Brasil. Com dez livros publicados, em voo solo ou parceria, e mais de uma centena de artigos publicados em jornais e revistas sobre cultura popular e saberes oriundos das Áfricas, chegou a hora de circular de forma mais sistemática  o resultado das pesquisas e as perspectivas das novas indagações, fundamentando as aulas em exposições orais, debates e discussão de textos. E com muito tambor, é claro. Não se exige qualquer formação para as aulas, mas apenas a disponibilidade para conversar sobre outros olhares e formas de se experimentar o mundo.

quinta-feira, 7 de abril de 2016

QUEM TEM MEDO DA POMBAGIRA?

A turma danou de dizer por aí que a professora Janaína Pachoal, do imbróglio do impeachment, teve uma performance, ao fazer um discurso, que lembrava a mistura entre uma neopentecostal e uma pombagira descontrolada. Vou meter a mão nesta cumbuca em relação ao segundo aspecto.
Do ponto de vista da etimologia, a palavra Pombagira certamente deriva dos cultos angolo- congoleses aos inquices. Uma das manifestações do poder das ruas nas culturas centro-africanas é o inquice Bombojiro, ou Bombojira, que para muitos estudiosos dos cultos bantos é o lado feminino de Aluvaiá, Mavambo, o dono das encruzilhadas, similar ao Exu iorubá e ao vodum Elegbara dos fons. Em quimbundo, pambu-a-njila é a expressão que designa o cruzamento dos caminhos, as encruzilhadas. Mbombo, no quicongo, é portão. Os portões são controlados por Exu. Grosso modo, e tentando simplificar para quem não é do babado, é por aí.
Os cruzos religiosos entre as várias culturas de origens africanas, ritos ameríndios, tradições européias, vertentes do catolicismo popular, etc. dinamizou no Brasil vasta gama de práticas religiosas fundamentadas em três aspectos básicos: a possibilidade de interação com ancestrais, encantados e espíritos através dos corpos em transes de incorporação (é o caso da umbanda) e expressão (é o caso dos candomblés); um modo de relacionamento com o real fundamentado na crença em uma energia vital - que reside em cada um, na coletividade, em objetos sagrados, alimentos, elementos da natureza, práticas rituais, na sacralização dos corpos pela dança, no diálogo dos corpos com o tambor, etc.; e na modelação de condutas estabelecida pelo conjunto de relatos orais e na transmissão de matrizes simbólicas por palavras, transes e sinais.
A pombagira, a meu critério, é resultado do encontro entre a força vital do poder das ruas que se cruzam, presente no inquice dos bantos, e a trajetória de encantadas ou espíritos de mulheres que viveram a rua de diversas maneiras (a corte das pombagiras é vasta), tiveram grandes amores e expressaram a energia vital através de uma sexualidade aflorada e potencialmente livre. 
A energia pulsante destas entidades cruzadas, como se o domínio delas já não fosse as encruzilhadas, é libertadora, mas nunca descontrolada. Ela é sempre controlada pela própria potência do poder feminino e se manifesta em uma marcante característica da entidade: a pombagira é senhora dos desejos do próprio corpo e manifesta isso em uma expressão corporal gingada, sedutora, sincopada, desafiadora do padrão normativo.
Visões moralistas da pombagira - a mulher que sofreu, se prostituiu e está entre nós para pagar seu karma - ou visões que operam no campo da doença e ligam o comportamento das encantadas das ruas aos desatinos da histeria (que Hipócrates julgava ser um problema exclusivamente feminino e derivado no útero), derivam de um duplo preconceito: contra os desconcertantes fundamentos das entidades bantas correspondentes ao Exu dos nagôs e contra a mulher que se expressa pela liberdade do corpo que gira livremente sem perder o prumo.
Não vou entrar no mérito das funções das pombagiras do ponto de vista litúrgico das curas espirituais, redenções, magias e outros atributos dessas entidades. Quero apenas ressaltar que a mistura entre os fundamentos cruzados das potências de Exu, Mavambo, Aluvaiá, Bombojiro, e a possibilidade da mulher ser senhora da sua sexualidade, controlando o corpo no aparente (para os padrões ocidentais) descontrole, são demais para nosso mundinho acostumado a padrões normativos. Pombagira é a mulher de sete maridos porque quer ser, como diz um ponto da entidade.
Fica a dica: pensemos nisso antes de vincular a pombagira, na maioria das vezes com humor, ao imaginário das mulheres descontroladas, possuídas por forças malignas ou em aparente ataque de nervos. 
Não entro no mérito da performance da professora Janaína, e é o que menos me interessa.Desconfio apenas que não é o humor que marca essa ligação que adoramos fazer entre arquétipo das pombagiras e o que julgamos ser um ataque de nervos de uma mulher. A nossa sociedade tem é medo, muito medo, dessa junção entre a potência de Aluvaiá e o poder da mulher sobre o próprio corpo. Quando entra a questão religiosa, aí é que o babado desanda. Nosso racismo epistêmico, que muitas vezes se manifesta em simpatia "pela cultura afro-brasileira", no fundo não reconhece esses saberes como sofisticados que são, mas apenas como peculiares e folclorizantes.
Bombojira, amizades, é dona do corpo - como são Aluvaiá, Exu, Elegbara - e sabe exatamente o que faz com ele: tudo aquilo que quiser fazer. Nós, que na maioria das vezes somos ensinados a ver no corpo o signo do pecado, é que não temos a mais vaga ideia do que fazer com ele.
Laroiê, Mavambo! Kiuá Nganga Bombogira! Meu amor e meus respeitos.

segunda-feira, 4 de abril de 2016

SOBRE O GAO E O BAOBÁ


Existe no Sahel, região africana de transição entre a savana e o deserto, uma árvore conhecida pelos hauçás como gao.  Para nós é uma acácia. Ao ler o belo e necessário livro A Geografia da Pele, em que Evaristo de Miranda descreve suas aventuras como agrônomo naquela África profunda, descubro que o gao é uma espécie de árvore do contra, capaz de subverter o padrão normativo do grupo. Na estação das chuvas, quando o verde toma conta da vegetação e as árvores vivem a florada esplendorosa, o gao perde as folhas, se acinzenta, murcha adormecido. Quando, todavia, a seca chega e a estiagem é inclemente, só essa acácia esverdeia; florescendo exuberante em meio ao cinza que parece mundo morto.

Os africanos do Sahel veneram o gao, visto como uma árvore sagrada, silenciosa e capaz de ensinamentos prodigiosos, inclusive para a conduta das comunidades. A acácia africana tem a ousadia de ser cinza quando o que se espera dela é o verde e verdejar quando tudo se acinzenta. Nos tempos difíceis, é ela que dá a sombra para os rebanhos e alimenta o gado com as folhas das extremidades de seus galhos.

Os baobás são muito maiores que as acácias. Verdadeiros templos encantados, os hauçás os conhecem como kukas. Em regiões ao sul do Saara, algumas etnias sedentárias chegavam a usar os baobás como túmulos dos griôs, os contadores de histórias responsáveis pela memória ancestral e pela manutenção, desta forma, dos laços de coesão do grupo. O baobá é a árvore da permanência e da continuidade da vida pela palavra.

Matuto nas acácias e baobás e concluo que, enjaulados em hospícios de concreto, desencantados do mundo, condecorados com tarjas pretas, eufóricos desmedidos e silenciosos deslocados, nós andamos precisados de gaos e kukas.  Educados na lógica normativa - incapazes de atentar para as culturas que subvertem ritmos, rompem constâncias, acham soluções imprevisíveis e criam maneiras imaginativas de se preencher o vazio, com corpos, vozes e cantos - padecemos prenhes de razões. 

O problema é que para reconhecer isso temos que sair do conforto dos sofás epistemológicos, aqueles em que morreremos tristes e conscientes da nossa suposta superioridade, e nos lançar na encruzilhada da alteridade, menos como mecanismo de compreensão e mais como vivência compartilhada.

Minha desconfiança é a de que precisamos, cada vez mais, escutar os baobás (as árvores da coesão) e atentar para a sabedoria das acácias do Sahel; aquelas que florescem quando tudo é cinza e se recolhem quando tudo canta, com a força e a beleza da diferença.  




domingo, 3 de abril de 2016

DE ONDE OS CABOCLOS BRADAM NO CAIR DA TARDE: LUGARES DE CONHECIMENTO

Nos últimos dez anos, comecei a amadurecer dois princípios que hoje são a base do que escrevo e do que penso. O primeiro é o de que os temas de pesquisa que me interessam são vinculados aos processos de invenção e reconstrução de laços de sociabilidade no campo de saberes oriundos da diáspora africana: sambas, escolas de samba, carnavais, terreiros de macumba, cozinhas dos candomblés, tambores que falam e corpos que respondem.

O segundo é o de que recebi da minha criação e da minha trajetória de vida um legado, baseado em um conjunto de saberes, do qual não posso abrir mão, inclusive no campo da produção do conhecimento. 

Como escrevi certa feita, nasci e cresci dentro de um terreiro de macumba, neto carnal de uma mãe de santo versada nos segredos do xambá pernambucano, da jurema e da encantaria. Fui, por isso mesmo, batizado nos conformes da curimba, protegido pelo caboclo Peri e pelo Exu Tranca Rua e oferecido aos cuidados da lua velha, num terreiro grande de Nova Iguaçu. 

Tive uma infância  assombrada pelo rufar dos tambores brasileiros e pelo alumbramento com os caboclos de pena, o povo de rua, os marujos e boiadeiros. Minha trajetória passou depois pela vivência no candomblé de keto e pela iniciação em Ifá. Estudei, cursei História, fiz o mestrado, comecei um doutorado, cheguei a ensaiar uma militância política convencional mais sistemática e faço uma carreira bem sucedida no magistério de ensino médio. Tudo isso é fundamental na minha formação.

Acontece que, ao lado disso, conforme relatei algumas vezes, conversei com o Zé; recebi ordens de Seu Tranca Rua; vi Tupinambá dançar encantado; fui seduzido pela beleza de Mariana e pela saudade de seu navio; temi a presença de Seu Caveira; cantei a delicadeza da pedrinha miudinha; respeitei o cachimbo velho de Pai Joaquim; me emocionei quando Cambinda estremeceu para segurar o touro bravo e amarrar o bicho no mourão.

Eu também me reconheci no meu deus enquanto ele dançava, tomando o corpo de uma yaô, ao ritmo do vento que balançava as folhas do mariô, amansando o chão de terra batida à virada do rum. O general fazia farfalhar a copa do dendezeiro com a destreza de sua adaga africana. 

O fato é que resolvi fazer desse pertencimento matéria do meu olhar sobre a História, no exercício imaginativo de alargar miradas e na busca de um conceitual matutado nos saberes de terreiros. 

Foi nessa perspectiva que desenvolvi os conceitos de oxalufânico e exusíaco; percebi que o Caboclo da Pedra Preta oferece uma chave para se refletir sobre a história miudinha; passei a pensar o Rio de Janeiro como uma guma de encantaria e proponho entender as relações sociais tensas e intensas da cidade a partir do conceito de canjira de santo: roda, afago, cacete, cheiro de flor, faca de prata.

Insisto na possibilidade de pensar questões culturais a partir do fenômeno do nkubi - o encontro dos cheiros nas florestas do Congo - e conceitualmente acho que a potência de Exu como "enugbarijó", a boca coletiva, e o “igbá odu”, dono da cabaça, encaminham reflexões potentes sobre a cultura das nossas ruas cruzadas.

Ando tomando cada vez mais gosto pela crônica, pelo texto curto, pela glosa e pelas artimanhas com a palavra como instâncias de expressão da produção de conhecimento. Escrevo, numa brincadeira produtiva, evitando conceitos produzidos pela reflexão ocidental. Tenho escutado mais pontos de macumba que lido livros e artigos acadêmicos. Preciso, neste momento, me deseducar para me educar e brincar no mundo. É coisa minha. Mergulho.

Não me levem a mal e nem vejam em mim qualidades que não tenho. Não reivindico lugar  que não seja o de um filho do encanto, criador e contador de histórias bordadas pelo tambor. Esse é o meu lugar de fala e eu não posso ser covarde e burro de abrir mão disso. Daqui eu olho as coisas. Há quem me abrace, há que me mande para a universidade, há quem me condene ao inferno. Eu canto.

Atravessei o mar a nado para ver a juremeira, "por cima de dois barril", como diz o ponto dos caboclos de Oxossi. Um barril é a lembrança e a herança ancestral da minha avó, do terreiro de Nova Iguaçu, das palavras de Ifá, dos cantos em nagô e dos brados dos bugres e mestres brasileiros. O outro barril é o meu compromisso com a minha terra e com o meu filho. A ele eu tenho a obrigação de contar estas histórias e firmar estes pontos, para que a minha avó não morra nunca.

Atravessar o mar foi a decisão mais corajosa da minha vida e eu não tenho nenhuma vontade de voltar para a outra praia. Eu não sei e não quero mais viver onde a juremeira não mora, as folhas não murmuram e os caboclos não bradam no cair da tarde.